Esperar é tão poético. É teatral. Ascenda um cigarro e faça ele durar a vida toda ao lado de uma única taça de vinho. Faça isso e espere com classe aquela coisa que se espera a vida toda, e no final só resta a pose de esperar. Ora dramático, ora cômico, ora sério e misterioso como quem pensa sobre a vida, sem vivê-la.
Esperar, como quem levita sobre um matagal de espinhos e esquece que levitar é apenas uma mágica irreal.
Aquele cinquentão, que bem me lembro, sabia como ser teatral esperando seu nada de cada dia.
Encontrava-o em todas as festas possíveis, ele estava sempre lá, sentado no sofá com uma taça de vinho e um cigarro. Solitário.
Todos riam e caiam bêbados ao seu lado, mas ele não perdia a pose. A doce pose de esperar melancolicamente.
Nada o tirava de sua espera e observação. Estava sempre atento ao que acontecia ao seu redor, observando tudo, como se em meio a esse tudo tão estranho e indiferente pudesse surgir seu nada, o nada que ele parecia ter marcado encontro em algum lugar, que nem ele mesmo sabia qual era.
Mas seus olhos não procuravam, não eram olhos ansiosos, famintos. Eram olhos de cinqüenta anos. Olhos de cinqüenta anos em meio aos olhos de vinte e cinco. Eram olhos antigos, de calma antiga e de alto grau de miopia.
Talvez aquele olhar cerrado não fosse somente parte da pose introspectiva e até sensual de esperar. Sua miopia colaborava para seu interessante personagem, que se recusava a usar os óculos.
Acho que só o vi falando com alguém nessas festas quando se dirigia ao garçom para pedir alguma coisa. Todos pareciam acostumados com aquele sujeito e com como ele sempre aparecia em todos os lugares. Ali, naquele ambiente festivo, ele parecia mais um artigo de decoração um tanto curioso para quem estivesse sozinho o suficiente para observá-lo, como eu.
Às vezes, nas noites mais solitárias de dias de festa, eu tinha vontade de me sentar ao lado dele e perguntar sobre sua vida, perguntar o que ele esperava, o que ele buscava. Mas depois me parecia tão estúpido. Seria como me meter na frente de um fotógrafo que aprecia a paisagem a ponto de bater a foto, ou como dar um grito enquanto alguém se senta a beira de um rio para ouvi-lo correr.
Sentia-me pequena por não poder ser como ele, por não poder sentar e curtir minha própria solidão sem ter que dividi-la com alguém. Ele parecia tão independente com toda aquela pose. Mas ao mesmo tempo tão dependente do que ele parecia esperar.
E se ele não estivesse esperando? E se era eu quem estava esperando algo e que depositava naquela figura de cinqüenta anos todo o meu desejo de saber algo da vida? Será que penso que aqueles cinqüenta anos podem carregar os meus dezoito de pura interrogação? Aqueles cinqüenta sabem de algo ou esperam por mim?
Queria eu, da vida, algo mais profundo e mais palpável? Engraçado essas duas coisas serem tão distintas. O centro da Terra é seu ponto mais profundo, porém onde jamais poderíamos ir e sentir com o tato, ver com os próprios olhos. O que nos angustia é que tudo de mais profundo que podemos viver também é tudo de mais abstrato que nunca poderemos tocar com as mãos e ver sua forma, pois não tem forma. Tudo que é vida transcende nossos limites corporais e não sabemos o que fazer com o que não podemos modificar com uma chave de fenda ou com um martelo. É difícil lapidar o abstrato, porque não sabemos onde ele está e que formato tem. Se tirarmos o lençol de cima de um fantasma, ele deixa de ser um fantasma. Mas cadê a capa que cobre o abstrato?
Gostaria de entender porque aquela figura me atraia tanto, como um pedaço de mim.
Várias vezes desejei, em momentos de pura angustia, que de repente enquanto eu andasse distraída pela rua, um velho sábio de barba branca me abordaria e diria uma frase com menos de dez palavras que me iluminasse e então salvasse alguma coisa que estivesse por morrer dentro de mim.
Lógico que isso nunca vai acontecer. Este velho, na verdade, seria Deus, e Deus está brincando de esconde-esconde por toda a eternidade. Nem adianta procurar, todos tentam, mas como ele é onisciente sempre sabe quando alguém se aproxima de encontrá-lo, então ele muda de lugar num instante. Deus é muito esperto para deixar que o encontremos. Que pretensão pensar que ele poderia me encontrar, que ele poderia ir atrás de mim, e não o contrário.
O que aqueles cinqüenta anos sabiam que os meus dezoito ainda chegariam um dia a saber? Será que há algo para saber?
Sinto-me também como quem espera. Mas não espero com cinqüenta, espero com dezoito. E minha espera é afobada, aflita, com sede de viver e sede de morrer. Minha espera não tem a menor classe e deixa resquícios de unhas roídas pelo chão e muito suor nas palmas das mãos.
Fiquei por volta de dois anos sem ver aquele homem. O homem que parecia sentar-se em meio a confusão da vida para pensar e esperar. O homem que parecia sempre ter um conselho valioso na ponta da língua. Um conselho tão valioso e perigoso que ninguém jamais teria coragem de chegar perto para perguntar-lhe qual era.
Ele havia sumido das festas. E eu sentia a carência daquela figura que eu poderia observar e analisar quando quisesse. Ele, de alguma maneira me confortava. Ele, de alguma maneira, era eu.
Certa vez fui convidada para o casamento de uma tia distante. Apesar de relutar um pouco por não ser íntima dela, acabei indo. Quando cheguei à festa, lá estava ele. Fiquei surpresa com sua aparição numa festa de minha família. Perguntava-me que relação ele teria com meus familiares.
Ele continuava com aquele mesmo ar misterioso e sábio, mas algo estava diferente. Por trás daquela seriedade toda havia um sorriso de compensação. Um sorriso sereno de quem encontrou algo muito valioso e quer manter em segredo. Ele ainda era introspectivo, mas tinha perdido a pose, a pose da solidão de esperar. Não era mais alguém que esperava. Ele tinha encontrado, mas eu não sabia o quê.
O homem não vestia seu costumeiro traje, aquele terno comum do tipo que se usa no escritório, a gravata azul marinho clássica e seus sapatos pretos e bem engraxados. Desta vez seu terno tinha um corte mais elegante e a gravata tinha tons de um dourado meio pardo. Porém, uma coisa ainda estava lá: o detalhe de uma caneta de tampa dourada brilhante que sempre estava no bolso de seu paletó. Seria ele um poeta que anota suas inspirações de um mundo cheio atores querendo mostrar suas cenas?
Seu cabelo grisalho era abundante apesar da idade, e muito bem penteado. Ainda sim um fio solto caia-lhe sobre a testa e cobria parte de uma ruga que sempre aparecia quando ele cerrava os olhos para amenizar os efeitos da miopia.
Por estar sempre nos mesmos lugares que eu, às vezes parecia perseguir-me, contudo nunca sequer aparentou ter notado minha presença.
Pela primeira vez aquele homem parecia ter saído um pouco de dentro de si mesmo e até o vi conversando com algumas pessoas.
Então teria sido a espera uma prisão dentro de si mesmo? Ou estou apenas fantasiando?
A cerimônia estava prestes a começar. Vi o misterioso homem próximo ao altar. “Talvez seja o padrinho” – pensei.
O sol entrava pelos vitrais e iluminava seu sorriso. Mas não o sorriso palpável que se pode ver e tocar. Seu sorriso era tão profundo que não se podia ver com os olhos.
De repente começou a marcha nupcial e a noiva entrou, cheia de sorrisos. Mas os dela podia-se ver com os olhos.
O homem, mais atraente do que nunca, permaneceu no centro do altar. Ele não era um padrinho, mas sim o próprio noivo. Fiquei sem entender nada. Porém, no fundo, eu entendi tudo.
A noiva caminhava até ele e ele suspirava aliviado, como se soubesse que alguma coisa dentro dele havia morrido para que outra pudesse nascer.
Nesse momento eu entendi porque o velho sábio jamais apareceria para salvar o que em mim estivesse morrendo. Porque neste exato momento algo estaria nascendo e isso não poderia mais ser interrompido nem adiado.
Quando a noiva finalmente atravessou todo o salão e colocou-se ao seu lado, de repente, o homem para mim deixara de ser tão misterioso e sábio. Ele parecia simplesmente um homem comum se unindo a mulher que ama. E era isso o que ele era.
Enquanto os dois davam as mãos no altar, eram naturais como qualquer outro ser humano. Olhando-o de longe ele não parecia ter mais nada do que me chamava atenção. Era um homem comum e real, com as aflições e alegrias que todo homo sapiens possui. De repente tudo se desmistificou. De repente o homem era apenas o homem e não o que eu via nele. O homem era apenas ele, e não pedaços de mim.
Era então pelo amor que ele estava esperando? Será que é por isso que esperamos durante toda a vida? O que ele me diria se eu perguntasse: “E então, encontrou o que tanto esperava?” Provavelmente ele nem entenderia minha pergunta… E talvez, nem goste de poesia.