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Poesia desistida.

Desisti de fazer poesia

Alguns talvez comemorem.
Talvez.

Acho que esqueci como se faz
Pra dizer coisa poética
Através de poesia.

Acho que esqueci como se faz
Pra dizer como é que dói a coisa
Que ta doída na gente

Acho que esqueci como se faz
Pra dizer pro meu namorado, pra você e pro vigário
Onde é que tá a paixão no meu vocabulário.

Acho que esqueci como se faz
Pra rimar verso e ficar bonito
Pra dizer palavra difícil e ficar altivo

Acho que esqueci como se faz
Pra colocar dor e amor no mesmo verso
E ficar plausível

Acho que esqueci como se faz
Pra minha gramática dar certo
com a sua.
Para a mesóclise ficar atenta
à minha descolocação pronominal.

Acho que esqueci como se faz
Pra ser sensível sem ser piegas
Pra ser forte e ao mesmo tempo sutil.
Acho que esqueci
meu rivotril.

Acho que esqueci como se faz
Pra encaixar tudinho as palavras
E ficar do jeitinho que eu sinto
no coração

Acho que esqueci…

De como terminar um poema
Ou uma canção.

Desventuras amorosas

Ele coloca qualquer coisa de bonito pra gente ouvir. Chico Buarque, talvez… não me lembro bem. Deito-me no sofá e sinto o cheiro de mijo de cachorro. Está por todo lado… seis cães, infinitos pêlos, saliva, mijo amarelo, bosta ressecada no piso de concreto do jardim. Levanto-me. A cadela acaba de cagar em meio as outras bostas ressecadas – mas esta ainda fresca e marrom brilha sob o sol do meio dia. Ela se afasta e mija. O macho vem atrás e mija em cima. Ele volta para o seu canto com cara de tédio enquanto a fêmea passeia com uma bolinha de tênis mal cheirosa e grudenta na boca. Pego a bolinha e jogo longe. Minha mão agora fede. A cachorra agora corre. O cachorro agora bufa. Você agora assiste tv. O agora são densos cheiros de animais e tédios.
Esse chão de carpete de madeira fede mijo. É madeira. Madeira é foda.
Tudo bem, deixa essa coisa de amar de lado, vamos ver um filme. Duas horas e meia de filme e eu ansiosa pra te amar.
O filme acaba, o tempo passa, a televisão enche o saco, os cachorros dormem, a bosta fresca e marrom agora está dura e preta, o sol já foi embora, e não esquenta mais o mijo até que ele evapore para minhas narinas.Coloco um colchonete minúsculo no chão e fico esperando você notar meu ferormônio. Meu denso e alado ferormônio.
Meus cabelos de cachos caem sobre meus olhos e eu te olho… deixo meus seios escaparem de minha blusa sem querer. E você sem querer me sorri e aperta os lábios inferiores com os dentes. Vejo que seu incubado calado colado se desentocar para a dança da chuva. Vem, meu querido, que também somos índios!
Ele se deita sobre as minhas costas. Gosto de sentir seu peso nos meus ombros, sua respiração nas minhas orelhas cada vez mais rápidas e angustiadas. Sinto seu cheiro – seu cheiro.
E no meio do seu cheiro vem-me um outro cheiro. Olho para baixo e lá está o chão, grudado ao pequeno colchonete. O chão de madeira amaciado por anos e anos de mijo. Maldito chão! Olho fixamente para ele como quem encara com raiva o vaso sanitário entupido de merda. Maldito chão de madeira mijado!
Desisto… vamos pra cama!
- A cama também não é grande coisa.
- Pelo menos não fico de cara no mijo!
Deito-me na cama e logo levanto. Avisto um espelho enorme e decido colocá-lo na nossa frente. Gosto de ver a gente fazendo amor. E também me envaidece um pouco, não posso negar.
Você coloca a mão nos meus quadris despidos. Gosto de sentir seus dedos- seus criativos dedos- escorregando pelos meus quadris até alcançar meus pêlos, como se ali me moldasse um delicado presente.
Estou de frente para o espelho. Você atrás de mim. Gosto de sentir a sua pele – a sua pele. Do quadril para baixo estou nua. Você delicadamente coloca seu dedo indicador no meu decote e alcança meu. Então acomoda vagarosamente toda a sua mão ao redor do meio seio direito e aperta com força. Geme de prazer e me despe de imediato. Rápido e certeiro.
Agarro o travesseiro e de novo me vem o pesadelo. Um cheiro de mijo de cachorro banha a fronha na qual deposito meus prazerosos gemidos. Mas dessa vez já não me importo. Você dentro de mim, e um mijo de cachorro na minha cara. Inalo sem querer um pêlo de cachorro enquanto respiro forte. Mas tudo bem. Nessas horas a gente não liga pra nada mesmo. Forço a garganta e tento cuspir fora feito catarro. Não dá certo… melhor engolir de uma vez.
- Por que seu pai tem tanto cachorro?! Cacete! – cansei de indagar. Mas aquele não era um bom momento, então calei-me.
A posição te excita, você goza rápido. Eu tô menstruada e fico louca pra trepar. Choro de prazer contido. Quero mais, mas acabou por hoje. Eu te amo mesmo assim. Você me ama mesmo assim.
- Vou tomar um banho.
A água vem quente, e leva junto o seu esperma grosso e muito branco, onde estão boiando alguns pêlos. Não pêlos pubianos. Pêlos de cachorro, que outrora estavam grudados no meu corpo suado.
Olho para o lado esquerdo e vejo uma lacraia de tamanho jamais notificado pela biologia. Fico com nojo. Arrasto a bicha com o rodo até que ela caia no ralo junto com a água, o esperma, os pêlos e o meu endométrio cheio de sangue.
Depois do banho fico bem. Arrumo um lugar limpo pra sentar, tenho cheirinho de sabonete. Ele me olha e diz que me ama.
- Te amo também. Vamos fazer um sanduíche, tenho fome!
Queria queijo, mas tinha um pêlo no queijo… e no requeijão, e no peito de peru também. Tudo bem, como pão com maionese.
Fuço o pão e a maionese de todos os ângulos. Ok, passaram pela inspeção. Nenhum pêlo. Jesus, pensei que fosse passar fome.
- Ah, vamos dormir!
Durmo meio atrofiada e engasgada com alguns micropêlos em minha garganta, ou com alguma neurose pertinente que me acometeu a sanidade.
No dia seguinte não esqueço minha pílula anticoncepcional. Hipoteticamente aborto nosso bebê fantasma (que talvez até tivesse traços caninos).
Você me pede desculpas pelo desconforto e eu respondo:
- Tudo bem querido, a vida tem dessas coisas. Príncipe encantado e palácio de cristal só existem em livros de fantasia para iludir meninas. Eu te amo mesmo assim.

E amo mesmo.

A primeira cria

Depois de tudo, teus olhos
Se voltarão para mim
Como se tudo fosse novo
E eu fosse outra
E o tempo fosse além
Daquele que vivemos.

Tuas mãos respirarão de novo
O odor de meus poros dilacerados
De tanto se banharem no fogo
Dos teus cabelos loucos.

Rastejei…
Finquei as minhas mãos limpas
No mais fundo da terra
Destrocei minhas unhas, perdi a carne
Adentrei o mais profundo que pude
Procurando pela terra, a vida.

Voltei, carregando um pedaço de nada
que pari ao luar de uma loucura
enquanto fervorosamente procurava um remédio abortivo:
a vida.
Agora tenho um pedaço de nada para criar.
E ainda sou muito nova para criá-lo
Mas estarei com Nada…
Nada vai correr no jardim e brincar.
Nada vai sorrir e dizer que me ama
Nada vai crescer e ser forte
Nada veio de mim
E Nada também é teu filho.

E depois de tudo, meu bem
por mais que
tu me ames
e eu te ame
não podemos fugir:
temos o Nada para alimentar.

Monitor cardíaco

Minha saliva tem gosto de tédio.
Minhas unhas roídas tem gosto de areia
- passatempo autodestrutivo

Observo meus dedos e vejo um imenso deserto..
dunas e dunas de areia
areia e sol-
marrom e vermelho
meu vulto escuro no meio
opaco e sarcástico veneno
indagando-me do vazio
qualquer coisa sobre o dia.
- mas aqui os dias são todos iguais!

Minha sombra me chama de alguém,
mas minha sombra não diz,
apenas denuncia em silêncio a minha existência
até às mais minúsculas partículas mundanas
E se não fossem as sombras,
e se não fossem os espelhos,
e se não fossem os olhos…
talvez eu nem soubesse…
talvez eu nem lembrasse…

Engulo minha saliva arenosa
e tenho vontade de vomitá-la
- não a quero
Ela engrossa em minha boca
borbulha, me enjoa… quer existir.
Mas não quero ter-me em mim
Não quero sentir meu gosto
meu gosto de tédio
meu gosto de hóstia
meu gosto sem gosto

… e um som contínuo de coisa morta
continua em meus ouvidos.
Um som agudo de aparelho hospitalar.
Não tenho medo, tenho tédio.

Só não quero ficar assim….

…com essa cara de quem espera.

É que, às vezes, por pouco…
muito pouco…
quase parece
que o nada
vai dar em alguma coisa.

É sábado…. tomo minha pílula anticoncepcional. Interrompo o possível fruto de um amor abandonado, que não cansa de virar as costas.
Ontem, esperma pelo ralo, sangue abortivo pelas pernas…
Sinto-me só, com meu bebê fantasma, com meu amor fantasma, com meu amante fantasma. Eu, fantasma.
Tantas coisas me viraram as costas, que já não vejo rostos a me olhar, olhos que se estendem e amam por amar.
Tudo bem, nada deu certo. Dois números, e a sorte a rodar… Dois números que a sorte não rodou. Fiquei pra trás…por tão pouco.
E depois todos sumiram… amigos, parentes. Todos a voar.
E o que me restava em pensar ser amada se fez faísca, coisa que se fantasia de fênix, mas é mortal como tudo o mais.
Porém não se aproxime mais… você, o outro, qualquer um em qualquer cais. Estou longe, distante da órbita corrida e caótica do mundo.
Meu mundo é lento e rasgado, sangrando mágoas por ter se entregado aos cuidados de um leão covarde.
Cedo meu corpo, faço amor, me entrego e ainda sim me renuncio. Não consigo encarar o espelho. Parece-me um sol rachado, algo que me dói a vista.
Falta-me tanto amor por mim mesma, que permito que me magoem e se virem. Permito que bebam do meu sangue quando quiserem… e depois fico anêmica e atrofiada esperando um carinho e um cuidado.
Talvez eu não valha muita coisa, e nem mereça tanto quanto peço. Mas talvez alguém, algum dia, em algum lugar, pudesse achar que mereço, e aí tudo estaria bem outra vez.
Meu sorriso é coisa rara. Sinto falta de sorrir…. sorrir a toa, por gostar da vida. Devo estar tão feia com essa aparência apática, esses lábios caídos de desgosto, a cabeça baixa, o olhar perdido…
Às vezes sinto que vou me perder para sempre…que num compasso, num choro, num desespero, vou partir e não voltar. Sinto-me ausente. Não consigo mais estar comigo e com a vida, e vivê-la, simplesmente. Estou triste como um girassol que murcha porque ficou trancado num apartamento que não bate sol.
Só queria que alguém soubesse, que alguém se importasse com isso. E já me vejo de novo criando meu amigo imaginário, apegando-me ao meu ursinho de pelúcia, voltando a ser criança que pede colo. Estou regredindo.
Não faço mais apelos, vou engolindo as migalhas que recebo…. rezei, pedi muitas coisas, tive sonhos… Em prantos falei com Deus, soluçando o coração dolorido. Falei sozinha…. abracei urso de pelúcia por falta de braços humanos. Não diga que não tentei.
Acendi uma vela pro meu santo favorito, pro anjo da guarda, e apenas dialoguei com as sombras na parede. Acho que é a primeira vez que sinto-me abandonada por todos os lados.
Tento me conter para não desabar totalmente, pois não quero ser piegas. E ninguém entende e abriga a pieguice alheia.
Só estou triste. Provavelmente mais triste do que jamais estive…. ( e isso já é piegas o suficiente).
Por isso, termino por aqui. Não quero ter pena de mim mesma… é o cúmulo da carência.
Bons ventos para os que navegam, pois a vida é uma questão de sorte.

Fez-se o anjo sem asas e a foz sem fim.
Pedaços de nuvens
que se emaranham entre as raízes dos meus pés,
ao lado de uma árvore gigante parindo frutos de desejos humanos
- cabeças, vingança, dinheiro, um filho, um amor, uma ilusão -
pedindo permissão para crescer.
Vozes gritam, atiçam as rodas vocais sonolentas dos humanos adormecidos.
Lua fina, mundo de papel,
Plano raso, escudo, diminutivo sem abraço.
Olhos vermelhos, palmas sem linha da vida, amores de fundo falso
Morres, mas não sabes morrer.
Morrer tentando viver, é defeito de abelhas
Chorar tentando existir, é defeito de nuvens
Transparecer tentando expelir, é defeito de vapor
Amar tentando completar-se é defeito de humano.
Eu sou o defeito de ti,
O tempo é o defeito dos dias
E tu, como ordem do amor,
o defeito de mim.

Vapor escorrido na película do espelho,
relógio quebrado, abelhas afogadas na doçura de um copo de refrigerante,
tempo passado, coração partido, amor…
- Pare! – disse o homem – estou apertado neste apego.
E o sol caiu ao meio dia no meio da praça e o levou ao meio do nada
para que o homem pudesse descobrir o meio de si mesmo.
Mas o apego era o eu irrenunciável…
E só eu que podia te cometer a morte e a vida
e sair inocente no julgamento dos teus dias.

Destes passados e presentes,
Desta paz e deste medo em simbiose,
sob os falsos olhos de um cego que me segue
- que podes chamar de Deus, se assim preferirdes -
me resta o resto da esperança de me ser, ainda.
– esta qualquer coisa que existe, e existir é um (d)efeito – (s)enfim.

Meu espírito é um escudo fechado. Minhas sentenças são definitivas, não reconsidero opinião.
Meu calor é crescente, mas minhas mãos são frias e meu coração é úmido.
Temo as pétalas e não os espinhos. O que me agrada me fere.
Meus olhos são duas grandes luas, de onde nascem duas gigantescas cascatas, nas quais se banham dois pesados elefantes alados pousados sobre minhas bochechas.
Meu sentimento é um tubarão assassino que pede carinho.
Sou semente de nuvem, mas não sou nuvem. Sou fruto do pé de Clarice, mas não sou Clarice. Folha branca que jamais será escrita. Taça que jamais abrigará o vinho. Poeta que não pariu a poesia.
Tenho a pele queimada, tenho unhas roídas, cicatriz no laço do abraço do fantasma que não existe.
Saias rodadas que o vento roda… mas não tenho pernas embaixo delas. Sou bicho rastejante e crio pedaços de via Láctea no jardim, e depois os tomo no café da manhã.
Censuro-me por abrigar-me em mim. Condeno minha nudez. Proíbo minha inocência e minha timidez.
Abrigo um ursinho de pelúcia sem olhos em meu quarto. Confesso a ele, em silêncio, meu segredos insabíveis pelo meu eu. O cego urso de pelúcia é mais eu do que eu mesma.
- Adoro os teus só ouvidos.
Talvez até meus lençóis sujos de sangue e gozo sejam mais eu do que eu mesma.
Talvez eu more fora de mim, nas coisas que criei, onde me deixei.
Uma roupa suja, uma música, uma vela que acendi, uma reza que rezei sem fé, a culpa, um homem que amei, um escrito num guardanapo usado, um coração que magoei, uma barata que matei… uma porção de vida que abandonei para existir fora de mim. E assim tenho um resto de tudo e tenho um tudo do nada.
E é só.

Sozinho.

Só pra não dizer que abandonei a poesia, aqui está um de meus falhos poemas:


    Ele, que vem do recôncavo
    dos dias e das luas
    e se põe ao lado,
    do lado, do lado
    do meu lado.
    E assim já é muito longe…
    E assim já é outra lua.
    Ele, que se num sopro cai
    não se apercebe que o vento que o derrubou
    agora lhe esfria a cabeça quente
    rolada ao chão.

    Amar custa uma tonelada
    de olhos pingados
    e se de tua amada cai um olho choroso
    cede teu olho brilhante,
    de sol e bolinha de gude
    para ela.
    Cede a atenção de teus olhos,
    que cuidadosamente estudam
    o tudo e o nada,
    para esta menina
    que tão frágil é
    quando frágil está.

    Tu, que és ele e és aquele
    Tu, que poetizo e transformo
    Ele, que se esconde e quase vejo
    pelas frestas das feridas.
    Aquele, estranho que me invade a carne,
    me degusta
    e depois se vira
    e se morre
    sem mim.

    Agarra-me pelos cabelos
    e pelas pernas
    Dissecas meu corpo fechado
    sem dizer-me uma palavra
    e tuas entranhas do avesso
    se embebedam de soturnos gemidos.

    Teus olhos estão em outro lugar…

    Reboliça em mim um espaço
    no formato de ti, que está ausente.
    Que na carne está presente,
    mas na alma não encontro
    a essência que se sente quanto ao que existe
    e te estende em oferenda
    a própria solidão.

    Passa um infinito de bonde
    Enquanto vejo o dia raiar
    E ele dorme tranqüilo.
    Passa uma mariposa a bailar
    E ele dorme sereno.
    Passam minhas lágrimas pelo lençol
    - e elas caminham em silêncio.

    Ele acorda –
    Rosto sujo, beijo duro, amor escuso.
    E diz que vai embora
    É hora- o sol está grande no céu-
    E o dia é pequeno em mim
    É hora – pode ir, que quando a noite cair
    Há de ter rosto sem véu.

Amor é só um nome.


Teu amor vem de teu pênis
(pronunciou o teu verbo)
De teu pênis onde sai o mijo.
Não me impressiona que então
eu receba um amor mijado, fedido.

Amor é só um nome.
Teu corpo é só um corpo, inútil fragmento por ti glorificado.
E tua alma, danada e danosa, na cratera do teu nada,
ficou sozinha e não tocou a minha.
Nem ao menos teu estúpido corpo com o meu se comunicou.
É, nem o corpo.
E eu que pensava, lá na começo, rodeada de flores e ilusões
que tu entenderia um dia da alma minha e da alma tua.
Da alma nossa.
Vi nosso amor cantar e voar
mas amor que canta e voa é passarinho
e passarinho passa sem amar
faz ninho por instinto
canta por cantar.
Amor é só um nome.
E talvez só minha criança te conheça,
aquela criança medrosa e traumatizada
de nove anos de idade, do interior de São Paulo
Só ela te viu, desde quando passastes a ser
outra criança da minha infância
a brincar de rosas e espinhos nas minhas pálpebras.
A criança feliz que guardo em mim,
a criança de quatro anos, do interior de Minas
que brincou, sorriu e colheu frutas do pé,
esta não te conhece,
nem sabe de tua existência
e eu a guardo somente comigo,
onde ninguém poderá magoá-la.

Agora eu sei,
amor é só um nome que se dá
a um rio que corre banhado de sol.
O mesmo sol que,
na próxima estação,
sugará toda a vida do rio
e secará até sua nascente
onde um dia se viu muita gente
a se banhar no arrepio.

Miopia

Esperar é tão poético. É teatral. Ascenda um cigarro e faça ele durar a vida toda ao lado de uma única taça de vinho. Faça isso e espere com classe aquela coisa que se espera a vida toda, e no final só resta a pose de esperar. Ora dramático, ora cômico, ora sério e misterioso como quem pensa sobre a vida, sem vivê-la.
Esperar, como quem levita sobre um matagal de espinhos e esquece que levitar é apenas uma mágica irreal.
Aquele cinquentão, que bem me lembro, sabia como ser teatral esperando seu nada de cada dia.
Encontrava-o em todas as festas possíveis, ele estava sempre lá, sentado no sofá com uma taça de vinho e um cigarro. Solitário.
Todos riam e caiam bêbados ao seu lado, mas ele não perdia a pose. A doce pose de esperar melancolicamente.
Nada o tirava de sua espera e observação. Estava sempre atento ao que acontecia ao seu redor, observando tudo, como se em meio a esse tudo tão estranho e indiferente pudesse surgir seu nada, o nada que ele parecia ter marcado encontro em algum lugar, que nem ele mesmo sabia qual era.
Mas seus olhos não procuravam, não eram olhos ansiosos, famintos. Eram olhos de cinqüenta anos. Olhos de cinqüenta anos em meio aos olhos de vinte e cinco. Eram olhos antigos, de calma antiga e de alto grau de miopia.
Talvez aquele olhar cerrado não fosse somente parte da pose introspectiva e até sensual de esperar. Sua miopia colaborava para seu interessante personagem, que se recusava a usar os óculos.
Acho que só o vi falando com alguém nessas festas quando se dirigia ao garçom para pedir alguma coisa. Todos pareciam acostumados com aquele sujeito e com como ele sempre aparecia em todos os lugares. Ali, naquele ambiente festivo, ele parecia mais um artigo de decoração um tanto curioso para quem estivesse sozinho o suficiente para observá-lo, como eu.
Às vezes, nas noites mais solitárias de dias de festa, eu tinha vontade de me sentar ao lado dele e perguntar sobre sua vida, perguntar o que ele esperava, o que ele buscava. Mas depois me parecia tão estúpido. Seria como me meter na frente de um fotógrafo que aprecia a paisagem a ponto de bater a foto, ou como dar um grito enquanto alguém se senta a beira de um rio para ouvi-lo correr.
Sentia-me pequena por não poder ser como ele, por não poder sentar e curtir minha própria solidão sem ter que dividi-la com alguém. Ele parecia tão independente com toda aquela pose. Mas ao mesmo tempo tão dependente do que ele parecia esperar.
E se ele não estivesse esperando? E se era eu quem estava esperando algo e que depositava naquela figura de cinqüenta anos todo o meu desejo de saber algo da vida? Será que penso que aqueles cinqüenta anos podem carregar os meus dezoito de pura interrogação? Aqueles cinqüenta sabem de algo ou esperam por mim?
Queria eu, da vida, algo mais profundo e mais palpável? Engraçado essas duas coisas serem tão distintas. O centro da Terra é seu ponto mais profundo, porém onde jamais poderíamos ir e sentir com o tato, ver com os próprios olhos. O que nos angustia é que tudo de mais profundo que podemos viver também é tudo de mais abstrato que nunca poderemos tocar com as mãos e ver sua forma, pois não tem forma. Tudo que é vida transcende nossos limites corporais e não sabemos o que fazer com o que não podemos modificar com uma chave de fenda ou com um martelo. É difícil lapidar o abstrato, porque não sabemos onde ele está e que formato tem. Se tirarmos o lençol de cima de um fantasma, ele deixa de ser um fantasma. Mas cadê a capa que cobre o abstrato?
Gostaria de entender porque aquela figura me atraia tanto, como um pedaço de mim.
Várias vezes desejei, em momentos de pura angustia, que de repente enquanto eu andasse distraída pela rua, um velho sábio de barba branca me abordaria e diria uma frase com menos de dez palavras que me iluminasse e então salvasse alguma coisa que estivesse por morrer dentro de mim.
Lógico que isso nunca vai acontecer. Este velho, na verdade, seria Deus, e Deus está brincando de esconde-esconde por toda a eternidade. Nem adianta procurar, todos tentam, mas como ele é onisciente sempre sabe quando alguém se aproxima de encontrá-lo, então ele muda de lugar num instante. Deus é muito esperto para deixar que o encontremos. Que pretensão pensar que ele poderia me encontrar, que ele poderia ir atrás de mim, e não o contrário.
O que aqueles cinqüenta anos sabiam que os meus dezoito ainda chegariam um dia a saber? Será que há algo para saber?
Sinto-me também como quem espera. Mas não espero com cinqüenta, espero com dezoito. E minha espera é afobada, aflita, com sede de viver e sede de morrer. Minha espera não tem a menor classe e deixa resquícios de unhas roídas pelo chão e muito suor nas palmas das mãos.
Fiquei por volta de dois anos sem ver aquele homem. O homem que parecia sentar-se em meio a confusão da vida para pensar e esperar. O homem que parecia sempre ter um conselho valioso na ponta da língua. Um conselho tão valioso e perigoso que ninguém jamais teria coragem de chegar perto para perguntar-lhe qual era.
Ele havia sumido das festas. E eu sentia a carência daquela figura que eu poderia observar e analisar quando quisesse. Ele, de alguma maneira me confortava. Ele, de alguma maneira, era eu.
Certa vez fui convidada para o casamento de uma tia distante. Apesar de relutar um pouco por não ser íntima dela, acabei indo. Quando cheguei à festa, lá estava ele. Fiquei surpresa com sua aparição numa festa de minha família. Perguntava-me que relação ele teria com meus familiares.
Ele continuava com aquele mesmo ar misterioso e sábio, mas algo estava diferente. Por trás daquela seriedade toda havia um sorriso de compensação. Um sorriso sereno de quem encontrou algo muito valioso e quer manter em segredo. Ele ainda era introspectivo, mas tinha perdido a pose, a pose da solidão de esperar. Não era mais alguém que esperava. Ele tinha encontrado, mas eu não sabia o quê.
O homem não vestia seu costumeiro traje, aquele terno comum do tipo que se usa no escritório, a gravata azul marinho clássica e seus sapatos pretos e bem engraxados. Desta vez seu terno tinha um corte mais elegante e a gravata tinha tons de um dourado meio pardo. Porém, uma coisa ainda estava lá: o detalhe de uma caneta de tampa dourada brilhante que sempre estava no bolso de seu paletó. Seria ele um poeta que anota suas inspirações de um mundo cheio atores querendo mostrar suas cenas?
Seu cabelo grisalho era abundante apesar da idade, e muito bem penteado. Ainda sim um fio solto caia-lhe sobre a testa e cobria parte de uma ruga que sempre aparecia quando ele cerrava os olhos para amenizar os efeitos da miopia.
Por estar sempre nos mesmos lugares que eu, às vezes parecia perseguir-me, contudo nunca sequer aparentou ter notado minha presença.
Pela primeira vez aquele homem parecia ter saído um pouco de dentro de si mesmo e até o vi conversando com algumas pessoas.
Então teria sido a espera uma prisão dentro de si mesmo? Ou estou apenas fantasiando?
A cerimônia estava prestes a começar. Vi o misterioso homem próximo ao altar. “Talvez seja o padrinho” – pensei.
O sol entrava pelos vitrais e iluminava seu sorriso. Mas não o sorriso palpável que se pode ver e tocar. Seu sorriso era tão profundo que não se podia ver com os olhos.
De repente começou a marcha nupcial e a noiva entrou, cheia de sorrisos. Mas os dela podia-se ver com os olhos.
O homem, mais atraente do que nunca, permaneceu no centro do altar. Ele não era um padrinho, mas sim o próprio noivo. Fiquei sem entender nada. Porém, no fundo, eu entendi tudo.
A noiva caminhava até ele e ele suspirava aliviado, como se soubesse que alguma coisa dentro dele havia morrido para que outra pudesse nascer.
Nesse momento eu entendi porque o velho sábio jamais apareceria para salvar o que em mim estivesse morrendo. Porque neste exato momento algo estaria nascendo e isso não poderia mais ser interrompido nem adiado.
Quando a noiva finalmente atravessou todo o salão e colocou-se ao seu lado, de repente, o homem para mim deixara de ser tão misterioso e sábio. Ele parecia simplesmente um homem comum se unindo a mulher que ama. E era isso o que ele era.
Enquanto os dois davam as mãos no altar, eram naturais como qualquer outro ser humano. Olhando-o de longe ele não parecia ter mais nada do que me chamava atenção. Era um homem comum e real, com as aflições e alegrias que todo homo sapiens possui. De repente tudo se desmistificou. De repente o homem era apenas o homem e não o que eu via nele. O homem era apenas ele, e não pedaços de mim.
Era então pelo amor que ele estava esperando? Será que é por isso que esperamos durante toda a vida? O que ele me diria se eu perguntasse: “E então, encontrou o que tanto esperava?” Provavelmente ele nem entenderia minha pergunta… E talvez, nem goste de poesia.

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