29/01/2012

Dessa necessidade de dizer…

por Fernanda Paz

“Somos donos do que calamos e escravos do que falamos.”

Sabe, eu tô aqui pensando nessa minha necessidade absurda de falar das coisas que sinto. Não posso deixar batido, nada. Tenho que me expor, estar do avesso, rasgar a pele o peito as veias. Ver jorrar meu sangue por todo lado, nadar nele, te afogar com ele… tudo isso até ter nojo de mim, até me tornar demasiadamente humana, involuntariamente despida e crua.
Conheço gente que nunca fala de si, fala do mundo, do jornal, do preço das coisas no mercado, das tragédias, ou de acontecimentos casuais… não tem essa necessidade claustrofóbica de falar de si. Pessoas que sabem valorizar o silêncio, a intimidade do que sentem, o mistério das coisas.
Amo-as e odeio-as. Amo pelo tanto que as invejo e admiro. Odeio por serem tão reservadas, pelo tanto que são inatingíveis e potencialmente idealizadas com toda a máscara de mistério. Tão reservadas que me ofendem. O silêncio delas torna o meu jeito de ser pontualmente vulgar e estúpido.
Um fremir de coisas caóticas, me jogo no mundo procurando um rumo, algo compreensível em meio a uma fumaça densa e irrespirável. Volto sempre desenganada, contemplando fantasmas e rindo alto de puro pavor.
Adoro os silenciosos. Tenho como um dos passatempos prediletos roubar a intimidade deles… sou uma ladrazinha de intimidades. Vou colhendo umas aqui, outras ali… e colecionando, me lembrando delas. Tento roubar um pouco da intimidade de qualquer pessoa que se aproxime de mim. Os silenciosos, ah, os silenciosos… nunca querem me dar nada! E sempre saem fugidos, assustados com minha loucura. Eu tenho que conquistar tudo com esmero e precisão. Furto tudo enquanto eles se distraem, ou então roubo mesmo à mão armada: “ – Passa essa intimidade aí agorinha mesmo, maluco!!”
As vezes eles me escapam, eu falho, vejo-os indo embora em passos pequenos, pois estão sempre atentos em não chamar atenção. Vão cuidar de suas miudezas, sem plateia.
Eu fico lá com cara de boba, e depois, resignada, me junto aos loucos desvairados como eu. Também adoro os loucos, estes que também existem do avesso. Eles são mais reais, menos idealizados, com toda sua humanidade sangrando… me entregam intimidades num segundo, sem que eu tenha que caçar por elas. Fazem-me confortável em me deixar ser exatamente o que sou. Vou cantar, rir alto, beber, falar de mim, de você, de tudo que acontece e do que não acontece. Vou me perder de mim e me tornar aquilo tudo que digo, romper o que tenho, ferir-me para dizer, para soprar palavras que vão perdendo o signo. Serei escrava de tudo o que disse, e do modo como me defino (vou sendo o que me invento). Estarei violada e suja. Logo farei um tratado sobre a complexidade das coisas. Ficarei angustiada e ansiosa… talvez termine a noite chorando sem saber exatamente porquê. Ou na cama de alguém que mal conheço, ou de cara no vaso, ou sozinha vagando por ruas estranhas, pensando no quanto quase nada vale a pena. Nem você, nem eu.
Pensando o quanto faço coisas pra me destruir, o quanto machuco as pessoas que realmente amo e me fazem bem, o quanto queria ser melhor pra elas… Essas pessoas que sei que vão estar sempre comigo, mas eu não estou sempre pra elas. Estou muito distraída roubando intimidades sem substância, intimidades sem olhos, enquanto os que me amam lutam por um pouquinho da minha atenção.
Está quente aqui dentro… acendo um incenso, pego um copo d’água e coloco dois cubos de gelo que de tão petrificados, racham em contato com a água, fazendo um barulhinho gostoso de ouvir. Tomo a água, assopro dentro do copo de vidro com os gelos no fundo, vem um arzinho fresco no meu rosto. Viro o copo, mordo o gelo. O incenso acaba. Chove lá fora, é alta madrugada e hoje eu resolvi ficar. Lá fora eles talvez bebam, dancem, trepem. Não os invejo, já fiz coisas como eles, mas hoje estou aqui. Quis ficar, ficar aqui, comigo, fazendo festinha pra mim… Lendo, assistindo filmes, ouvindo música. Tudo completamente sóbria e contente.
Contente porque estou criando intimidade comigo mesma, fazendo amizade comigo. Olhando-me e perguntando: “Ei, como você está? Me fale de você… Vamos fazer algo legal juntas.”
E percebo, ao fim, que posso ser melhor para as pessoas que amo, se primeiro for melhor e mais serena comigo mesma.

28/01/2012

Para ler ao som de Angela Rô Rô

por Fernanda Paz

“Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você
não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa
que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que
só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre
estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei
claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo
banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo,
depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente
pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa
esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer
choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentrode-
mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se
preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais
autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca
meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto
tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica
subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio
puta e velha demais e completamente bêbada (…)
que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em
qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma
coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos
faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso…”

Trecho do livro “Morangos Mofados”

27/01/2012

Eu sou uma catástrofe

por Fernanda Paz

Achei essa poesia que escrevi há meses atrás, e que não deixa de fazer sentido, infelizmente.

Apareça novamente
e diga
que eu sou mesmo uma catástrofe
que irrito a todos com minhas ironias maldosas
com minhas falas pretensiosas
sempre cheias de razão.

que faço de tudo para me defender,
às lágrimas
e gritos
ecoando entre carros e avenidas
entre braços e abismos.
que sou da família
dos elefantes alados
também parente das formigas de trezentas toneladas

que tenho tanto medo
que atiro apavorada
no vento, ao ouvir qualquer ruído
- não vi que era só um passarinho

tento sempre me justificar
embora, em silêncio,
eu peça desculpas
repetidas vezes.

lembro-me da sua face,
a face que há tempos não vejo mais
olhando-me perplexo, sem dizer nada,
desertor,
pasmo com meu jeito,
pasmo com as pontes que iam caindo,
desabando,
sem comunicação alguma com nada.
eu do outro lado
sozinha
sobre um rio de destroços.

hoje vejo faces que me olham
e me lembram
aquela sua.
O mesmo suspiro desertor.

Queria apenas dizer
que sinto-me muito triste
olhando essas faces,
lembrando de ti,
e tendo consciência de mim

… de que sou mesmo uma catástrofe.

20/01/2012

Passagem das horas

por Fernanda Paz

(…)

“Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas…
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca…
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

(…)

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico… Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica…

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim – ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

(…)

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

(…)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

(…)

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus.

(…)

Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
Eu, enfim, literalmente eu,
E eu metaforicamente também,
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
As leis irrepreensíveis da Vida,
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo…
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
Sem personalidade com valor declarado,
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
E que acho que não faz mal não ligar importância à pátria
Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

(…)

Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa…

(…)

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavisnio,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.”

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/445.php

20/01/2012

por Fernanda Paz

admitir que desaba o teto
salvar-se do teto que cai
e só.

17/01/2012

Sou mulher

por Fernanda Paz

poderia eu
ser diminuta e límpida,
uma menina.
mas cresci
vi, senti,
carreguei mil universos
dentro de minha claustrofóbica densidade.
estou toda suja de mundo
com as pernas cansadas,
mas de olhar erguido
esvoaçando trovões
sou nômade de braço em braço
amargurada com tanta mentira
e opressão
sou mulher
e ah…
como é solitário ser mulher
mais fácil seria
me deixar menina
e adormecer princesa
com um semblante de fragilidade
chamando cuidados mil.
mas desde o momento em que ergui
minha voz e meu peito
não posso mais
voltar.
ah, como é solitário..
ser.

16/01/2012

como chorar

por Fernanda Paz

chore
(o motivo não importa)
deixe as lágrimas
escorrerem de seus olhos
fluentemente
não as reprima
chore
coloque as pontas dos dedos
debaixo dos olhos
por sobre os cílios inferiores
na nascente de sua cascata
(perceba a textura do pelo molhado)
deixe os dedos sentirem
a sua água
brotar
os dedos devem estar
leves e moles
para que escorreguem
como num tobogã
por suas bochechas
repita o movimento
(dos olhos até o sumo das bochechas)
sinta sua pele
as nuances
os poros
as pintas
as cicatrizes
deixe as epidermes conversarem
sinta a água correr
nos labirintos das suas digitais
chore
deslize os dedos moles
das bochechas até a boca
chore
sinta o modo como
se movem
os seus lábios
(aperte o seu contorno)
toque seus dentes molhados
e aflitos
sinta o gosto dos seus dedos
com a língua
lamba uma lágrima da face
deguste sua essência de sal
chore
faça uma conchinha com a mão
e cubra seu queixo
(de modo que o meio da palma se encaixe no queixo)
e sinta pingar uma chuvinha
no fofinho da sua palma contraída
mergulhe
no que te brota
e beba
o que te sobra
logo
chorar
será o ato
prazeroso
do seu encontro.

16/01/2012

Lembro-me

por Fernanda Paz

lembro-me
eu usava um amuleto
uma pedra verde num cordão preto
caindo entre os seios.
teu olhar castanho
fitando
a pedra o seio o medo
eu pensando como se existe
quando alguém te assiste
te amando.

eu lembro
e ainda ouço
um ruído teu
nos barulhos meus
como uma concha que carrega
sonzinhos de mar

ouço teu riso
numa nuance de riso meu
um tom semelhante, quase igual
e tu não sabes
como é insuportável
não ser sozinha
ter dentro de si
um resto de alguém
ser um caracol
gritando silêncios
para uma ostra.

lembro sim,
eu me lembro


nossos corpos na contra mão
meia morte,
perdi o meu cordão
o amuleto
o medo

e a tua visão.

13/01/2012

Faceta

por Fernanda Paz

Eu,
algo que se dissolve
em noites bêbadas
e entranhas dilaceradas.
Eu,
um algo que me escapa
e me fere pelas costas
sem que haja tempo
de me virar para olhar.
Eu,
um susto desacompanhado
sem pretensão alguma
além do espanto.

Eu que me miro
e atiro
no que não conheço
depois fico fitando
cadáveres sem rosto
dentro de mim.

Eu
que queria amar
mas me ocupo demais
com nadas
substânciais.

Eu
que queria ser o que respiro
e fluir
mas me atenho
a ser
o que deliro
e me iludir.

09/01/2012

Imagina se eu me chamasse Começo.

por Fernanda Paz

Dele ela não sabia nada, nada além do fato de que era um homem de saias. Conversaram a noite toda, sobre a própria palavra, sobre o céu, sobre cervejas e viagens.
Ele usava uma saia azul e lisa até o pé, um tênis e uma camiseta com símbolos feministas. Ela observava o corpo dele embaixo da luz amarela, bem perto do espelho. Tinha traços de mulher, olhar de mulher, sorriso de mulher. As formas eram masculinas, mas dançavam no espaço de modo bastante feminino. Talvez não fosse isso, era outra coisa, mais inteira e menos fragmentada… parecia não ser nem homem nem mulher, nem heterossexual, nem homossexual. Tinha um jeito próprio de ser, que se desprendia da binaridade de gêneros.
Sorriram, dançaram. Ela não sabia se deveria beijá-lo. Ele sentiria atração por ela? Ela sentia atração por ele, ou apenas admirava seu modo de existir?
O alcool, o olhar, a luz e a música fluíram juntos e eles beijaram-se. Pensava: “são olhos de mulher”. Não conseguia se livrar da ânsia de encaixá-lo em algo que ela conhecia, em algo que ela poderia classificar e então tornar domável. “As mãos são de homem, mas as pontas dos dedos femininas”. Tinha um cérebro programado para dividir tudo em masculino e feminino, e isso agora a confrontava. Se irritava ao perceber a sua dificuldade em se desvincilhar dos moldes. Os moldes que ela mesmo sempre criticara.
Entregou-se àquele mistério sem nome, sem casa, sem gênero. Amaram-se em algum lugar. No sofá, na cama, na janela? Perto dos espinhos flamejantes de um floco de neve. Tantas vezes que ela se cansara. Ela disse: Imagina se eu me chamasse começo – todo medo, erro e imaturidade aceitos.
Mas no fundo queria ser fim, só pra poder ser ela a partir toda as vezes, a dar o tempo exato do término de tudo. Só para aprender a essência do abandono e da liberdade – pensou mas não disse.
Poderiam ter conhecido, numa única noite, um pouco do que neles nascia e morria a cada minuto, mas o acaso fez deles apenas corpos num espaço escuso e noturno.
Ela conversava coisas mil, mas ele respondia tudo com silêncios verbalizados. Dizia o mínimo para não dizer nada. Ter tocado só a pele bastava para ele. “Tudo bem, mais profundo é a pele. Pense nela, sinta ela”. Então ela se manteve lá, perto do sumo, mas pensando coisas epiteliais: continentes, pelos, pintas, mundos em camadas, três tons, manchas, cicatrizes. Caiu de bicicleta quando criança? Cresceu rápido. Queimou-se na mão com um ferro? Conversou com a pele, não com a voz. Quase satisfez sua necessidade de roubar um pouco da intimidade daqueles que dela se aproximam.
Dormiram, ele acordou antes, cheio de olhares desviados… Sumiu com a fumaça do café. Ela ficou no quarto, decidida a abrigar o que viesse, ou a ser fim.
Na mesa dele estavam Foucault, Freud, Hilda Hilst, a foto da silhueta de um homem nu em preto e branco, um livro com uma coleção de pinturas de mulheres nuas. Livros sobre teoria queer, gênero, sexualidade. Uma agenda, que ela fitou por alguns segundos e então abriu, ansiosa. Leu: “Eu sou caos, danço caos. Não ofereço base. Não aceito nomes de “querido” e “bebê”, são formas de não me levar a sério. Marcas de silêncio. Não nos queremos, mas nos rendemos.”
Ficou um tempo estatelada olhando aquela letra azul marcando o papel bege. Primeiro sentiu uma grande satisfação em ter, finalmente, furtado um tanto da intimidade dele, depois pensou em como a letra “a” dançava bonito no modo como ele escrevia. Ao lado do pequeno texto, um desenho cubista de coisas abstratas. Se perguntassem, ela diria que era um lírio. Pegou um pedaço de papel na bolsa e num ato estrangeiro e rápido, anotou aquilo tudo exatamente como estava, para não se esquecer de nenhum tom. Pensou que jamais poderia tocar algo nele que não fosse a pele. Ele simplesmente não queria. Não a queria e talvez não quisesse outros tantos… Não nos queremos, mas nos rendemos. Aquilo ecoava fazendo mil círculos na cabeça dela, círculos que rolavam como avalanches, sem entregar porquês.
Pensou que talvez também não o quisesse, mas que queria alguém. Queria tão fortemente alguém, que tê-lo por uma noite talvez amenizasse essa ansiedade toda de amar. Mas não, a cada passo, encontro, novo alguém, novo cheiro, nova respiração, o amor parecia cada vez mais distante, e ela cada vez mais sozinha e ansiosa.
Perguntava-se se realmente gostaria de estar ali. Sem dúvida havia estado com um homem inteligente e liberto, diferente dos que conhecera. Ou talvez não… cada pequeno milímetro de seu quarto demonstrava um potencial esconderijo. Ficava sendo mistério sem pretensão de sê-lo. Simplesmente não tinha necessidade ou vontade de comunicar-se com ela da maneira que ela precisava. Para ela, ele ficou sendo o enigmático homem de tênis, saias e uma porção de idéias que ele não disse, mas que ela roubou nas arestas soltas de um quarto caótico.
Ela não o impressionava. Talvez ela fosse até normal demais, com sua meia calça e sapatilha… mil vontades reprimidas e dezenas de homens mortos dentro do peito. Ele a impressionava como uma escultura dadaísta. Talvez estivesse pensando demais sobre algo que não necessitava tanto esforço e vitalidade.
Ao ir embora, ele disse: “até mais, querida”
Ela ficou em silêncio e sorriu. “Não aceito nomes de “querido” ou “bebê”, lembrou. Respondeu em pensamento: adeus.

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