Arquivo para janeiro 9th, 2012

09/01/2012

Imagina se eu me chamasse Começo.

por Fernanda Paz

Dele ela não sabia nada, nada além do fato de que era um homem de saias. Conversaram a noite toda, sobre a própria palavra, sobre o céu, sobre cervejas e viagens.
Ele usava uma saia azul e lisa até o pé, um tênis e uma camiseta com símbolos feministas. Ela observava o corpo dele embaixo da luz amarela, bem perto do espelho. Tinha traços de mulher, olhar de mulher, sorriso de mulher. As formas eram masculinas, mas dançavam no espaço de modo bastante feminino. Talvez não fosse isso, era outra coisa, mais inteira e menos fragmentada… parecia não ser nem homem nem mulher, nem heterossexual, nem homossexual. Tinha um jeito próprio de ser, que se desprendia da binaridade de gêneros.
Sorriram, dançaram. Ela não sabia se deveria beijá-lo. Ele sentiria atração por ela? Ela sentia atração por ele, ou apenas admirava seu modo de existir?
O alcool, o olhar, a luz e a música fluíram juntos e eles beijaram-se. Pensava: “são olhos de mulher”. Não conseguia se livrar da ânsia de encaixá-lo em algo que ela conhecia, em algo que ela poderia classificar e então tornar domável. “As mãos são de homem, mas as pontas dos dedos femininas”. Tinha um cérebro programado para dividir tudo em masculino e feminino, e isso agora a confrontava. Se irritava ao perceber a sua dificuldade em se desvincilhar dos moldes. Os moldes que ela mesmo sempre criticara.
Entregou-se àquele mistério sem nome, sem casa, sem gênero. Amaram-se em algum lugar. No sofá, na cama, na janela? Perto dos espinhos flamejantes de um floco de neve. Tantas vezes que ela se cansara. Ela disse: Imagina se eu me chamasse começo – todo medo, erro e imaturidade aceitos.
Mas no fundo queria ser fim, só pra poder ser ela a partir toda as vezes, a dar o tempo exato do término de tudo. Só para aprender a essência do abandono e da liberdade – pensou mas não disse.
Poderiam ter conhecido, numa única noite, um pouco do que neles nascia e morria a cada minuto, mas o acaso fez deles apenas corpos num espaço escuso e noturno.
Ela conversava coisas mil, mas ele respondia tudo com silêncios verbalizados. Dizia o mínimo para não dizer nada. Ter tocado só a pele bastava para ele. “Tudo bem, mais profundo é a pele. Pense nela, sinta ela”. Então ela se manteve lá, perto do sumo, mas pensando coisas epiteliais: continentes, pelos, pintas, mundos em camadas, três tons, manchas, cicatrizes. Caiu de bicicleta quando criança? Cresceu rápido. Queimou-se na mão com um ferro? Conversou com a pele, não com a voz. Quase satisfez sua necessidade de roubar um pouco da intimidade daqueles que dela se aproximam.
Dormiram, ele acordou antes, cheio de olhares desviados… Sumiu com a fumaça do café. Ela ficou no quarto, decidida a abrigar o que viesse, ou a ser fim.
Na mesa dele estavam Foucault, Freud, Hilda Hilst, a foto da silhueta de um homem nu em preto e branco, um livro com uma coleção de pinturas de mulheres nuas. Livros sobre teoria queer, gênero, sexualidade. Uma agenda, que ela fitou por alguns segundos e então abriu, ansiosa. Leu: “Eu sou caos, danço caos. Não ofereço base. Não aceito nomes de “querido” e “bebê”, são formas de não me levar a sério. Marcas de silêncio. Não nos queremos, mas nos rendemos.”
Ficou um tempo estatelada olhando aquela letra azul marcando o papel bege. Primeiro sentiu uma grande satisfação em ter, finalmente, furtado um tanto da intimidade dele, depois pensou em como a letra “a” dançava bonito no modo como ele escrevia. Ao lado do pequeno texto, um desenho cubista de coisas abstratas. Se perguntassem, ela diria que era um lírio. Pegou um pedaço de papel na bolsa e num ato estrangeiro e rápido, anotou aquilo tudo exatamente como estava, para não se esquecer de nenhum tom. Pensou que jamais poderia tocar algo nele que não fosse a pele. Ele simplesmente não queria. Não a queria e talvez não quisesse outros tantos… Não nos queremos, mas nos rendemos. Aquilo ecoava fazendo mil círculos na cabeça dela, círculos que rolavam como avalanches, sem entregar porquês.
Pensou que talvez também não o quisesse, mas que queria alguém. Queria tão fortemente alguém, que tê-lo por uma noite talvez amenizasse essa ansiedade toda de amar. Mas não, a cada passo, encontro, novo alguém, novo cheiro, nova respiração, o amor parecia cada vez mais distante, e ela cada vez mais sozinha e ansiosa.
Perguntava-se se realmente gostaria de estar ali. Sem dúvida havia estado com um homem inteligente e liberto, diferente dos que conhecera. Ou talvez não… cada pequeno milímetro de seu quarto demonstrava um potencial esconderijo. Ficava sendo mistério sem pretensão de sê-lo. Simplesmente não tinha necessidade ou vontade de comunicar-se com ela da maneira que ela precisava. Para ela, ele ficou sendo o enigmático homem de tênis, saias e uma porção de idéias que ele não disse, mas que ela roubou nas arestas soltas de um quarto caótico.
Ela não o impressionava. Talvez ela fosse até normal demais, com sua meia calça e sapatilha… mil vontades reprimidas e dezenas de homens mortos dentro do peito. Ele a impressionava como uma escultura dadaísta. Talvez estivesse pensando demais sobre algo que não necessitava tanto esforço e vitalidade.
Ao ir embora, ele disse: “até mais, querida”
Ela ficou em silêncio e sorriu. “Não aceito nomes de “querido” ou “bebê”, lembrou. Respondeu em pensamento: adeus.

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