Arquivo para janeiro 16th, 2012

16/01/2012

como chorar

por Fernanda Paz

chore
(o motivo não importa)
deixe as lágrimas
escorrerem de seus olhos
fluentemente
não as reprima
chore
coloque as pontas dos dedos
debaixo dos olhos
por sobre os cílios inferiores
na nascente de sua cascata
(perceba a textura do pelo molhado)
deixe os dedos sentirem
a sua água
brotar
os dedos devem estar
leves e moles
para que escorreguem
como num tobogã
por suas bochechas
repita o movimento
(dos olhos até o sumo das bochechas)
sinta sua pele
as nuances
os poros
as pintas
as cicatrizes
deixe as epidermes conversarem
sinta a água correr
nos labirintos das suas digitais
chore
deslize os dedos moles
das bochechas até a boca
chore
sinta o modo como
se movem
os seus lábios
(aperte o seu contorno)
toque seus dentes molhados
e aflitos
sinta o gosto dos seus dedos
com a língua
lamba uma lágrima da face
deguste sua essência de sal
chore
faça uma conchinha com a mão
e cubra seu queixo
(de modo que o meio da palma se encaixe no queixo)
e sinta pingar uma chuvinha
no fofinho da sua palma contraída
mergulhe
no que te brota
e beba
o que te sobra
logo
chorar
será o ato
prazeroso
do seu encontro.

16/01/2012

Lembro-me

por Fernanda Paz

lembro-me
eu usava um amuleto
uma pedra verde num cordão preto
caindo entre os seios.
teu olhar castanho
fitando
a pedra o seio o medo
eu pensando como se existe
quando alguém te assiste
te amando.

eu lembro
e ainda ouço
um ruído teu
nos barulhos meus
como uma concha que carrega
sonzinhos de mar

ouço teu riso
numa nuance de riso meu
um tom semelhante, quase igual
e tu não sabes
como é insuportável
não ser sozinha
ter dentro de si
um resto de alguém
ser um caracol
gritando silêncios
para uma ostra.

lembro sim,
eu me lembro


nossos corpos na contra mão
meia morte,
perdi o meu cordão
o amuleto
o medo

e a tua visão.

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