Arquivo para janeiro 28th, 2012

28/01/2012

Para ler ao som de Angela Rô Rô

por Fernanda Paz

“Mas, eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você
não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa
que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que
só umedece com vodca, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre
estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei
claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo
banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo,
depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente
pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa
esquina ou ligo para o cvv às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer
choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentrode-
mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se
preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais
autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca
meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela pára e pede, preciso tanto tanto
tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica
subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio
puta e velha demais e completamente bêbada (…)
que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em
qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma
coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos
faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso…”

Trecho do livro “Morangos Mofados”

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