“Somos donos do que calamos e escravos do que falamos.”
Sabe, eu tô aqui pensando nessa minha necessidade absurda de falar das coisas que sinto. Não posso deixar batido, nada. Tenho que me expor, estar do avesso, rasgar a pele o peito as veias. Ver jorrar meu sangue por todo lado, nadar nele, te afogar com ele… tudo isso até ter nojo de mim, até me tornar demasiadamente humana, involuntariamente despida e crua.
Conheço gente que nunca fala de si, fala do mundo, do jornal, do preço das coisas no mercado, das tragédias, ou de acontecimentos casuais… não tem essa necessidade claustrofóbica de falar de si. Pessoas que sabem valorizar o silêncio, a intimidade do que sentem, o mistério das coisas.
Amo-as e odeio-as. Amo pelo tanto que as invejo e admiro. Odeio por serem tão reservadas, pelo tanto que são inatingíveis e potencialmente idealizadas com toda a máscara de mistério. Tão reservadas que me ofendem. O silêncio delas torna o meu jeito de ser pontualmente vulgar e estúpido.
Um fremir de coisas caóticas, me jogo no mundo procurando um rumo, algo compreensível em meio a uma fumaça densa e irrespirável. Volto sempre desenganada, contemplando fantasmas e rindo alto de puro pavor.
Adoro os silenciosos. Tenho como um dos passatempos prediletos roubar a intimidade deles… sou uma ladrazinha de intimidades. Vou colhendo umas aqui, outras ali… e colecionando, me lembrando delas. Tento roubar um pouco da intimidade de qualquer pessoa que se aproxime de mim. Os silenciosos, ah, os silenciosos… nunca querem me dar nada! E sempre saem fugidos, assustados com minha loucura. Eu tenho que conquistar tudo com esmero e precisão. Furto tudo enquanto eles se distraem, ou então roubo mesmo à mão armada: “ – Passa essa intimidade aí agorinha mesmo, maluco!!”
As vezes eles me escapam, eu falho, vejo-os indo embora em passos pequenos, pois estão sempre atentos em não chamar atenção. Vão cuidar de suas miudezas, sem plateia.
Eu fico lá com cara de boba, e depois, resignada, me junto aos loucos desvairados como eu. Também adoro os loucos, estes que também existem do avesso. Eles são mais reais, menos idealizados, com toda sua humanidade sangrando… me entregam intimidades num segundo, sem que eu tenha que caçar por elas. Fazem-me confortável em me deixar ser exatamente o que sou. Vou cantar, rir alto, beber, falar de mim, de você, de tudo que acontece e do que não acontece. Vou me perder de mim e me tornar aquilo tudo que digo, romper o que tenho, ferir-me para dizer, para soprar palavras que vão perdendo o signo. Serei escrava de tudo o que disse, e do modo como me defino (vou sendo o que me invento). Estarei violada e suja. Logo farei um tratado sobre a complexidade das coisas. Ficarei angustiada e ansiosa… talvez termine a noite chorando sem saber exatamente porquê. Ou na cama de alguém que mal conheço, ou de cara no vaso, ou sozinha vagando por ruas estranhas, pensando no quanto quase nada vale a pena. Nem você, nem eu.
Pensando o quanto faço coisas pra me destruir, o quanto machuco as pessoas que realmente amo e me fazem bem, o quanto queria ser melhor pra elas… Essas pessoas que sei que vão estar sempre comigo, mas eu não estou sempre pra elas. Estou muito distraída roubando intimidades sem substância, intimidades sem olhos, enquanto os que me amam lutam por um pouquinho da minha atenção.
Está quente aqui dentro… acendo um incenso, pego um copo d’água e coloco dois cubos de gelo que de tão petrificados, racham em contato com a água, fazendo um barulhinho gostoso de ouvir. Tomo a água, assopro dentro do copo de vidro com os gelos no fundo, vem um arzinho fresco no meu rosto. Viro o copo, mordo o gelo. O incenso acaba. Chove lá fora, é alta madrugada e hoje eu resolvi ficar. Lá fora eles talvez bebam, dancem, trepem. Não os invejo, já fiz coisas como eles, mas hoje estou aqui. Quis ficar, ficar aqui, comigo, fazendo festinha pra mim… Lendo, assistindo filmes, ouvindo música. Tudo completamente sóbria e contente.
Contente porque estou criando intimidade comigo mesma, fazendo amizade comigo. Olhando-me e perguntando: “Ei, como você está? Me fale de você… Vamos fazer algo legal juntas.”
E percebo, ao fim, que posso ser melhor para as pessoas que amo, se primeiro for melhor e mais serena comigo mesma.






