Arquivo para fevereiro, 2012

21/02/2012

Um dia quente

por Fernanda Paz

Quando amar era só mero capricho do seu ego, feitiço, enfeite, solidão toda colorida e adornada, ainda sim era mais fácil que estar sozinho, no escuro, numa noite muito quente como esta, completamente entristecido em um silêncio nostálgico, e então se assustar terrivelmente com o barulho de um percevejo adentrando o quarto, batendo nas janelas de ferro, nas paredes, na madeira do guarda roupas. Você torce pra ele não te tocar. Você não quer ser tocado pelo percevejo. O quarto quase totalmente escuro, você não consegue vê-lo, somente ouve seu som repulsivo.
Na sua frente a luz do computador, o percevejo vem até ti atraído pela luz, pousando finalmente em sua mão enquanto você se distrai ou se amedronta. Você o afasta rapidamente com um peteleco. Você tem nojo de sua casca grossa, de seu barulho duro, de seu jeito asqueroso de grudar em tudo com sua pata rasgada. Quer carinho humano, quer leveza, quer pele macia, quer uma mulher… mas faz calor, a cidade está cheia de insetos, eles invadem o quarto. Você cobre as pernas com o edredom pra evitar os mosquitos e sente as gotas de suor escorrerem lentamente da dobra dos joelhos até a bunda. Não tem uma merda de inseticida nessa casa, não tem nem alguém com quem reclamar dos insetos. Tem um gato, e ele também está perturbado. Parado no meio da sua vasta cama de casal, na qual há tempos você dorme sozinho, ele tenta agarrar os mosquitos que voam ao seu redor com as patas dianteiras. Suas pupilas estão dilatadas, todo seu esforço é vão. Os insetos, tão pequenos, parecem vencer qualquer ser vivo esta noite.

Teu mais novo vício é acender incensos, e mesmo com um calor de 38 graus, você acende um. Acende aquele, que diz trazer paz e energia, mas só porque tem um cheiro bom. São três horas da manhã de uma sexta feira e você não saiu para beber. Ficou em casa, lendo os livros acumulados cheios de promessas, fazendo qualquer bobagem na internet, assistindo os clássicos do cinema que todos seus amigos já viram, menos você.
Fica tentando prolongar as horas, para que o dia não passe em vão. Lembra que tem um resto de Velho Barreiro na geladeira, de uma festa de meses atrás. Coloca uma dose, pinga um limão, depois mais uma e mais uma. Bêbado o suficiente para deitar em sua vasta e solitária cama de casal e conseguir chorar um pouco. Não, você não ama… também não sente raiva de ninguém. Percebe que conseguiu perdoar a tudo e a todos, e que no fundo só sente mágoa de si mesmo. Admite que passa a maior parte do tempo se auto flagelando por se odiar tanto, por tão profundamente nunca conseguir se perdoar pelas falhas e pelo tempo perdido.
Olha bem ao redor, pensa em todas as pessoas de sua vida, e não vê nenhum inimigo. Por mais que tentasse aponta-los e incriminá-los, não haveria ninguém. Sente-se um tanto insignificante pela ausência de inimigos – oras, nada que eu faço é tão importante a ponto de existir alguém interessado em me deter – e pensa que talvez você seja mesmo uma farsa – uma farsa da natureza, sem nada que me arme contra, por mais que eu tente todo o tempo encontrar culpados para as minhas desgraças.
Por fim é só você e você: olhando no espelho sua cara embriagada, a barba suja com um pouco de geléia, as olheiras, o princípio de uma ruga… a indiferença e o tempo… lá você encontra o seu inimigo. Morre de pavor e se põe a chorar. Chora, sofrendo de solidão e medo. Levanta os braços sedentos e toca com as pontas dos dedos os próprios ombros como se fosse se abraçar. Tentar hesitar, vendo-se um tanto idiota diante do espelho num ato como aquele, mas se entrega como quem decide amar, se abraça, se enlaça, se pega todo no braço e se joga na vasta cama de casal encolhido como um feto, pedindo desculpas engasgadas e baixinhas para si mesmo…
Vai sendo embalado pelo próprio choro, até dormir… Ao acordar já não se lembra com tanta intensidade da noite anterior ou do encontro que tivera. Levanta-se um pouco assustado, e ao olhar o relógio corre para escovar os dentes. Toma o seu café e segue caminhando até o trabalho, sem pensar sobre os passos e a rua…

16/02/2012

Inacessível

por Fernanda Paz

Solitária em minha independência
triste em minha solidão
como se não precisasse de ninguém
sigo sendo uma montanha inacessível
com um córrego
de água potável
cercado por enormes muros de pedra.

À mim ninguém chega
de minha fonte ninguém bebe
em minha floresta
ninguém senta para olhar estrelas
e os animais andam fugidos
e as árvores emurchecidas.

Se alguém tenta entrar para ver
o que é que tem ali
eu deixo
brinco, sorrio, amo
sou feliz por alguns instantes
mas depois começo a chover
involuntariamente,
enormes tempestades
ventos incríveis
que levam todos embora
pelo ar.

Tento esquecer
e fazer tudo acerca do que programei
minha face diz
que não preciso de mais nada
mas eu estava lá trovejando
e rezando em prantos
para que meu visitante
resistisse
que se agarrasse muito forte numa árvore
e quisesse muito permanecer ali.
Mas meus visitantes
nunca suportam os meus fenômenos
e seguem plainando
para outras florestas mais amigáveis
e ensolaradas.

Queria derrubar todos os meus muros
tirar toda a mata morta
que cobre a visão do sol
deixar todos entrarem
e me darem as mãos
(mesmo que alguns entrem apenas
para me arrancar flores e sujar meu rio)
mas meu medo me recolhe
e me protege
daquilo que não deveria haver
proteção.

12/02/2012

Pressentimento

por Fernanda Paz

O peito apertava, ela voltava a sentir aquilo… aquilo que ninguém saberia explicar. Uma relação incrível entre ela e o cosmo, em que a atmosfera ao seu redor ficava cada vez mais densa e irrespirável no momento em que alguém lhe feria. Um segredo profundíssimo encharcado de dor e medo. Todos os astros odeiam a sua ignorância e a bombardeiam com chuvas de pedra dentro do peito.
Ele não precisaria dizer uma palavra, nem lançar um olhar sequer, porque mesmo sem vê-lo, ela já sabia… que aqueles braços não eram mais somente dela.
Sonhou que Júpiter se transformava em um velho senhor, que caminhava até ela dizendo: “A verdade te ama. A verdade caminha até você.”
E ela chorava, morrendo de tristeza, sem saber o que fazer com tudo isso… no seu peito já não havia mais espaço para o sonho ou delírio. As coisas eram o que eram, e choviam cheias de pedregulhos e ruínas…

11/02/2012

Carinho triste

por Fernanda Paz

“A tua boca ingênua e triste
E voluptosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência.
Teus seios, que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha do mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!…)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.”

Manuel Bandeira

02/02/2012

Gostaria que você se amasse como eu te amo.

por Fernanda Paz

Talvez meu vício seja o erro. Talvez eu chore por alguém, na cama de outro. Talvez eu esteja fadada a nunca mais amar. Talvez eu siga amando, para sempre, uma idéia.
Eu, que nunca te vi chorar, mas me deito em noites mensais nos teus ombros, aos prantos, talvez queira fazer algo importante por ti, te dizer coisas bonitas e coisas tristes também (permita-me ser triste), revirar um pouco a sua história e depois ir embora. Ir embora porque somos errados demais para ficar, e algo mais próximo de um rumo está longe de tudo aquilo que escolhemos por vontade.
Eu te disse que eu estava acostumada com um sexo que era amor. Pedi que você me visse, me visse como quem ama, embora soubesse ser um pedido absurdo para um primeiro encontro. E depois vi que continuava a ser um pedido absurdo até mesmo para um milésimo encontro.
Acho que me rendi a ter o que podia ter, ao invés do que desejava ter. Rendi-me a dar o que posso dar, ao invés do que gostaria de dar.
Eu sei que, por mais que eu tente estar inteira aqui, fico sempre fragmentada, num outro universo intangível. Ao fim serei só uma lembrança, tátil, olfativa, mas uma lembrança.
Eu não quero ir sem ficar. Sem ficar de algum modo… você viu como o tempo passa? Eu nunca vou dizer aquilo, e você também não. Amanhã serão outros, outros dentro de nós, mas nós seremos os mesmos. Erradamente os mesmos.
Não pude ser mais do que sou. Fantástica, fatal, cinematográfica – nada disso. Apenas uma mulher. Uma mulher que sente, chora, ri, se dói inteira numa única respiração. Desfaço qualquer atmosfera de sonho com meu passo forte e minha voz alta.
“É que se não me tocam com uma pluma, qualquer outra coisa é pesada demais.” – Lembrava-me.
Sei que serei ferida de novo, mas não por uma mão exata, certeira, não por um traço definido no espaço. Serei ferida numa atmosfera caótica, onde eu nada possa ver. Serei ferida sem saber por onde. Ao abrir os olhos não poderei ver meu assassino. Estarei só, procurando uma face inexistente.
Investigarão as digitais nas armas… não verão nada além das marcas de minhas mãos. Tudo terá sido suicídio?
Olho para eles e fico confusa. Estão lado a lado por medo ou por desejo? É o medo que os move em direção ao outro? O medo de não ter, o medo de não ser nada, o medo de estar vazio.
Pavoroso é olhar fundo nos olhos de alguém e não ver nada, absolutamente nada por trás deles. Dar de cara com um ser humano sem alma, um alguém assustadoramente desprovido de qualquer centelha.
Passo a língua nos lábios e eles estão amargos. Terrivelmente amargos. Passei algum remédio na cara, tomei dipirona, ou amei alguém?
Talvez tudo isso. Talvez nada disso.
Ela se aproximou de mim e disse: “Eu te amo tanto, minha querida. Tanto, tanto…Gostaria que você se amasse com eu te amo.”
Chorei. Entreguei a ela um cartão pedindo desculpas. “Me desculpa por não cuidar de mim como você gostaria. Sei que dói ver quem a gente ama se ferindo. Eu te amo. Gostaria que você fosse muito feliz.”
Ela respondeu que tem medo. Medo de eu me tornar uma mulher amarga. Bem próxima do meu ouvido: “Você é uma pessoa incrível, não se deixe ferir, porque muitas feridas nos deixam amargurados com a vida. Quero que seja doce pra você.”
O que ela talvez não saiba é que para mim é provável que seja impossível. Impossível seguir uma vida doce… que escolhi sentir, sentir tudo o que vier, e o que não vier também. Uma vida só pode ser doce se for leve, e para ser leve é preciso estar boiando na superfície. Estou ocupada, concentrada em conhecer a vida nas profundezas. Alimentando minha densidade para estar sempre lá, no fundo. Não recuso tristeza, dores, cavaleiros armados, pesadelos, labirintos, florestas densas e solitárias. Vou indo, querendo estar viva, querendo saber o que é isso. Lambuzando-me do doce, do amargo, do salgado, do azedo, e principalmente dos sabores sinestésicos que me tomam de sobressalto. Assumi um risco, e não tenho caminho de volta.
Preciso ir. Ela implora para que eu fique. Eu peço desculpas… toda vez que olho para ela estou pedindo desculpas. Meus olhares pedem perdão eternamente. Temo que ela não saiba. Temo feri-la. Temo sua inexistência no próximo segundo.
Vou seguindo, caminhando pelas ruas do centro da cidade e pensando em coisas. Será tudo mesmo tão difícil? Três degraus acima, um pouco de sol, uma árvore, as vozes das crianças nas bicicletas. As rodinhas trepidando no paralelepípedo. Um grupo tocando violão e bebendo vodca.
Eu tenho nas mãos uma música, pouca unha e uma caneta que insisto em morder a ponta.
Lembro que aprendi a andar de bicicleta sozinha, sem platéia e sem aplausos. Começo a delirar sobre como sempre fiz tudo sozinha. Sozinha… caminho pela cidade, ouço as rodinhas de bicicleta trepidarem, as garrafas de vodca baterem contra o asfalto, um homem bêbado jogado na praça com um violão ao lado. Será ele? Ele está bem? Sinto saudades… as mesmas calças, o mesmo tamanho, o mesmo cabelo. Aproximo-me… ansiosa. Não era ele… não era .
Penso, conformada: éramos parecidos demais para nos suportarmos.
“Você está bem melhor agora… E ele também” – foi o que ela disse, entre um gole de café e outro. Eu concordei, engolindo seco um pouco de cuspe, voltando os olhos para o além.
Ficamos fazendo passarinhos de origami com os guardanapos da cafeteria, antes de eu me despedir. Guardei um. Brincava com ele enquanto voltava a pé pra casa. Levantava-o bem alto contra o céu azul, azulzinho, e tapava um dos olhos. A gente fica mais focado quando vê com um olho só.
Logo terei de ir embora daqui. Logo terei outros destinos. Pensava nisso enquanto fazia o passarinho ondular no ar.
Parei quando na minha mira de um olho só apareceu uma bola vermelha em meio ao azul. Um semáforo me dizendo que eu deveria parar, pois o sinal estava verde para os carros.
Parei , abaixei o passarinho, tirei a mão que cobria um dos olhos, mirei o mundo à minha frente com os dois. Lembrei-me que precisava fazer compras, lavar calcinhas, arrumar o quarto… Vi a loja de doces, pensei no doce que te prometi, mas que não comemos. O sinal ficara verde para mim, e enquanto eu atravessava a rua guardava o passarinho no bolso, sem vê-lo, sem pensá-lo… Guardava um pedaço de papel num mundo de esquecimento.

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