Talvez meu vício seja o erro. Talvez eu chore por alguém, na cama de outro. Talvez eu esteja fadada a nunca mais amar. Talvez eu siga amando, para sempre, uma idéia.
Eu, que nunca te vi chorar, mas me deito em noites mensais nos teus ombros, aos prantos, talvez queira fazer algo importante por ti, te dizer coisas bonitas e coisas tristes também (permita-me ser triste), revirar um pouco a sua história e depois ir embora. Ir embora porque somos errados demais para ficar, e algo mais próximo de um rumo está longe de tudo aquilo que escolhemos por vontade.
Eu te disse que eu estava acostumada com um sexo que era amor. Pedi que você me visse, me visse como quem ama, embora soubesse ser um pedido absurdo para um primeiro encontro. E depois vi que continuava a ser um pedido absurdo até mesmo para um milésimo encontro.
Acho que me rendi a ter o que podia ter, ao invés do que desejava ter. Rendi-me a dar o que posso dar, ao invés do que gostaria de dar.
Eu sei que, por mais que eu tente estar inteira aqui, fico sempre fragmentada, num outro universo intangível. Ao fim serei só uma lembrança, tátil, olfativa, mas uma lembrança.
Eu não quero ir sem ficar. Sem ficar de algum modo… você viu como o tempo passa? Eu nunca vou dizer aquilo, e você também não. Amanhã serão outros, outros dentro de nós, mas nós seremos os mesmos. Erradamente os mesmos.
Não pude ser mais do que sou. Fantástica, fatal, cinematográfica – nada disso. Apenas uma mulher. Uma mulher que sente, chora, ri, se dói inteira numa única respiração. Desfaço qualquer atmosfera de sonho com meu passo forte e minha voz alta.
“É que se não me tocam com uma pluma, qualquer outra coisa é pesada demais.” – Lembrava-me.
Sei que serei ferida de novo, mas não por uma mão exata, certeira, não por um traço definido no espaço. Serei ferida numa atmosfera caótica, onde eu nada possa ver. Serei ferida sem saber por onde. Ao abrir os olhos não poderei ver meu assassino. Estarei só, procurando uma face inexistente.
Investigarão as digitais nas armas… não verão nada além das marcas de minhas mãos. Tudo terá sido suicídio?
Olho para eles e fico confusa. Estão lado a lado por medo ou por desejo? É o medo que os move em direção ao outro? O medo de não ter, o medo de não ser nada, o medo de estar vazio.
Pavoroso é olhar fundo nos olhos de alguém e não ver nada, absolutamente nada por trás deles. Dar de cara com um ser humano sem alma, um alguém assustadoramente desprovido de qualquer centelha.
Passo a língua nos lábios e eles estão amargos. Terrivelmente amargos. Passei algum remédio na cara, tomei dipirona, ou amei alguém?
Talvez tudo isso. Talvez nada disso.
Ela se aproximou de mim e disse: “Eu te amo tanto, minha querida. Tanto, tanto…Gostaria que você se amasse com eu te amo.”
Chorei. Entreguei a ela um cartão pedindo desculpas. “Me desculpa por não cuidar de mim como você gostaria. Sei que dói ver quem a gente ama se ferindo. Eu te amo. Gostaria que você fosse muito feliz.”
Ela respondeu que tem medo. Medo de eu me tornar uma mulher amarga. Bem próxima do meu ouvido: “Você é uma pessoa incrível, não se deixe ferir, porque muitas feridas nos deixam amargurados com a vida. Quero que seja doce pra você.”
O que ela talvez não saiba é que para mim é provável que seja impossível. Impossível seguir uma vida doce… que escolhi sentir, sentir tudo o que vier, e o que não vier também. Uma vida só pode ser doce se for leve, e para ser leve é preciso estar boiando na superfície. Estou ocupada, concentrada em conhecer a vida nas profundezas. Alimentando minha densidade para estar sempre lá, no fundo. Não recuso tristeza, dores, cavaleiros armados, pesadelos, labirintos, florestas densas e solitárias. Vou indo, querendo estar viva, querendo saber o que é isso. Lambuzando-me do doce, do amargo, do salgado, do azedo, e principalmente dos sabores sinestésicos que me tomam de sobressalto. Assumi um risco, e não tenho caminho de volta.
Preciso ir. Ela implora para que eu fique. Eu peço desculpas… toda vez que olho para ela estou pedindo desculpas. Meus olhares pedem perdão eternamente. Temo que ela não saiba. Temo feri-la. Temo sua inexistência no próximo segundo.
Vou seguindo, caminhando pelas ruas do centro da cidade e pensando em coisas. Será tudo mesmo tão difícil? Três degraus acima, um pouco de sol, uma árvore, as vozes das crianças nas bicicletas. As rodinhas trepidando no paralelepípedo. Um grupo tocando violão e bebendo vodca.
Eu tenho nas mãos uma música, pouca unha e uma caneta que insisto em morder a ponta.
Lembro que aprendi a andar de bicicleta sozinha, sem platéia e sem aplausos. Começo a delirar sobre como sempre fiz tudo sozinha. Sozinha… caminho pela cidade, ouço as rodinhas de bicicleta trepidarem, as garrafas de vodca baterem contra o asfalto, um homem bêbado jogado na praça com um violão ao lado. Será ele? Ele está bem? Sinto saudades… as mesmas calças, o mesmo tamanho, o mesmo cabelo. Aproximo-me… ansiosa. Não era ele… não era .
Penso, conformada: éramos parecidos demais para nos suportarmos.
“Você está bem melhor agora… E ele também” – foi o que ela disse, entre um gole de café e outro. Eu concordei, engolindo seco um pouco de cuspe, voltando os olhos para o além.
Ficamos fazendo passarinhos de origami com os guardanapos da cafeteria, antes de eu me despedir. Guardei um. Brincava com ele enquanto voltava a pé pra casa. Levantava-o bem alto contra o céu azul, azulzinho, e tapava um dos olhos. A gente fica mais focado quando vê com um olho só.
Logo terei de ir embora daqui. Logo terei outros destinos. Pensava nisso enquanto fazia o passarinho ondular no ar.
Parei quando na minha mira de um olho só apareceu uma bola vermelha em meio ao azul. Um semáforo me dizendo que eu deveria parar, pois o sinal estava verde para os carros.
Parei , abaixei o passarinho, tirei a mão que cobria um dos olhos, mirei o mundo à minha frente com os dois. Lembrei-me que precisava fazer compras, lavar calcinhas, arrumar o quarto… Vi a loja de doces, pensei no doce que te prometi, mas que não comemos. O sinal ficara verde para mim, e enquanto eu atravessava a rua guardava o passarinho no bolso, sem vê-lo, sem pensá-lo… Guardava um pedaço de papel num mundo de esquecimento.







