Carinho triste

por Fernanda Paz

“A tua boca ingênua e triste
E voluptosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência.
Teus seios, que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha do mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!…)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.”

Manuel Bandeira

Um Comentário para “Carinho triste”

  1. “ele não a quer”. Ambiguidade típica do gênero lírico. Ele não quereria a tristeza ou não quereria a mulher? Fico com a segunda interpretação: ele não quer a mulher, não gosta realmente dela. Querer na forma transitiva direta é gostar; na transitiva indireta, desejar.

    Uma forma ambígua interessante ocorre quando o objeto é um pronome na segunda pessoa: “te quero” pode significar tanto que te quero bem quanto que te desejo.

    Te quero, Fernanda, em ambos os sentidos.

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