Quando amar era só mero capricho do seu ego, feitiço, enfeite, solidão toda colorida e adornada, ainda sim era mais fácil que estar sozinho, no escuro, numa noite muito quente como esta, completamente entristecido em um silêncio nostálgico, e então se assustar terrivelmente com o barulho de um percevejo adentrando o quarto, batendo nas janelas de ferro, nas paredes, na madeira do guarda roupas. Você torce pra ele não te tocar. Você não quer ser tocado pelo percevejo. O quarto quase totalmente escuro, você não consegue vê-lo, somente ouve seu som repulsivo.
Na sua frente a luz do computador, o percevejo vem até ti atraído pela luz, pousando finalmente em sua mão enquanto você se distrai ou se amedronta. Você o afasta rapidamente com um peteleco. Você tem nojo de sua casca grossa, de seu barulho duro, de seu jeito asqueroso de grudar em tudo com sua pata rasgada. Quer carinho humano, quer leveza, quer pele macia, quer uma mulher… mas faz calor, a cidade está cheia de insetos, eles invadem o quarto. Você cobre as pernas com o edredom pra evitar os mosquitos e sente as gotas de suor escorrerem lentamente da dobra dos joelhos até a bunda. Não tem uma merda de inseticida nessa casa, não tem nem alguém com quem reclamar dos insetos. Tem um gato, e ele também está perturbado. Parado no meio da sua vasta cama de casal, na qual há tempos você dorme sozinho, ele tenta agarrar os mosquitos que voam ao seu redor com as patas dianteiras. Suas pupilas estão dilatadas, todo seu esforço é vão. Os insetos, tão pequenos, parecem vencer qualquer ser vivo esta noite.
Teu mais novo vício é acender incensos, e mesmo com um calor de 38 graus, você acende um. Acende aquele, que diz trazer paz e energia, mas só porque tem um cheiro bom. São três horas da manhã de uma sexta feira e você não saiu para beber. Ficou em casa, lendo os livros acumulados cheios de promessas, fazendo qualquer bobagem na internet, assistindo os clássicos do cinema que todos seus amigos já viram, menos você.
Fica tentando prolongar as horas, para que o dia não passe em vão. Lembra que tem um resto de Velho Barreiro na geladeira, de uma festa de meses atrás. Coloca uma dose, pinga um limão, depois mais uma e mais uma. Bêbado o suficiente para deitar em sua vasta e solitária cama de casal e conseguir chorar um pouco. Não, você não ama… também não sente raiva de ninguém. Percebe que conseguiu perdoar a tudo e a todos, e que no fundo só sente mágoa de si mesmo. Admite que passa a maior parte do tempo se auto flagelando por se odiar tanto, por tão profundamente nunca conseguir se perdoar pelas falhas e pelo tempo perdido.
Olha bem ao redor, pensa em todas as pessoas de sua vida, e não vê nenhum inimigo. Por mais que tentasse aponta-los e incriminá-los, não haveria ninguém. Sente-se um tanto insignificante pela ausência de inimigos – oras, nada que eu faço é tão importante a ponto de existir alguém interessado em me deter – e pensa que talvez você seja mesmo uma farsa – uma farsa da natureza, sem nada que me arme contra, por mais que eu tente todo o tempo encontrar culpados para as minhas desgraças.
Por fim é só você e você: olhando no espelho sua cara embriagada, a barba suja com um pouco de geléia, as olheiras, o princípio de uma ruga… a indiferença e o tempo… lá você encontra o seu inimigo. Morre de pavor e se põe a chorar. Chora, sofrendo de solidão e medo. Levanta os braços sedentos e toca com as pontas dos dedos os próprios ombros como se fosse se abraçar. Tentar hesitar, vendo-se um tanto idiota diante do espelho num ato como aquele, mas se entrega como quem decide amar, se abraça, se enlaça, se pega todo no braço e se joga na vasta cama de casal encolhido como um feto, pedindo desculpas engasgadas e baixinhas para si mesmo…
Vai sendo embalado pelo próprio choro, até dormir… Ao acordar já não se lembra com tanta intensidade da noite anterior ou do encontro que tivera. Levanta-se um pouco assustado, e ao olhar o relógio corre para escovar os dentes. Toma o seu café e segue caminhando até o trabalho, sem pensar sobre os passos e a rua…






