Faço café como quem se esquece que vive só. O café transborda da garrafa térmica e colore de marrom escuro a bancada de mármore branco. Penso comigo, não sei fazer café para uma única garganta.
Abro o armário. Tenho exatamente oito recipientes entre copos de requeijão e canecas. Oito pessoas poderiam beber café comigo. O café transborda, somente o mármore branco compartilha comigo aquele oceano negro.
Escolho uma caneca para beber o meu café. Escolho a melhor, a mais nova e mais bonita; ela é verde e laranja com o desenho de uma vaquinha simpática.
Tenho a vaquinha, tenho o mármore e tenho o som religioso de minha velha geladeira, que a cada exatos cinco minutos emite um som muito alto, um estalo seguido de uma leve tremedeira.
Sento na banqueta e apoio minha caneca na mesa. Fico observando o meu quarto da cozinha, vejo uma cama de casal e um abajur. Vou para perto da porta de entrada da casa. Olho tudo, cada detalhe, com enorme satisfação. Tenho exatamente a casinha que imaginei. Os quadros na parede, a prateleira de livros, as fotografias, os abajures, a cama, o tapete e as cortinas… Vou fazendo miudezas como quem faz edifícios, pinto um vaso, tinjo uma cortina, crio uma mandala para pendurar na janela…
A casa tem alguma exteriorização muito visível de mim, e isso é o que a torna tão aconchegante e ao mesmo tempo tão claustrofóbica.
Tenho tido dificuldade para dormir, a insônia me pega como refém e quer me amar. Eu me rendo a ela, a amo e me vicio nessa companhia sorrateira e suspensa do tempo. De madrugada quase se pode encontrar o silêncio… todas as dores, obrigações e papéis sociais vão dormir.
O momento mais terrível do meu dia é quando as seis horas da manhã começam a se aproximar. Exatamente as seis o meu vizinho acorda. Posso ouvir até o barulho de seu despertador no andar de cima. Ele faz tudo sempre do mesmo jeito: abre a torneira, fecha a torneira, usa o vaso, dá descarga, toma banho. Depois de uns dez ou quinze minutos ouço sua porta abrir e fechar com força. Com certeza faz tudo as pressas para cumprir com seus horários, depois só o ouço novamente as dez horas da noite, quando ele chega apressado para tomar banho e dormir.
As cinco da manhã começo a ficar ansiosa, as cinco e quinze tento técnicas de meditação para dormir, as cinco e meia desisto, levanto, faço um chá, ascendo um incenso, ouço Chet Baker. As cinco e quarenta e cinco já estou completamente desesperada, com os ouvidos inseguros e amedrontados, temendo a chegada da primeira onda sonora do novo dia, aquela que violentará meu tempo e minha quietude. E finalmente as cinco e cinquenta e cinco já posso ver raios de sol entrando pela minha janela e ouvir o som dos passarinhos cantando. O som do canto dos pássaros é o ponto máximo de minha angústia. Depois desse auge eu me resigno, começo a contar os minutos em minha cabeça. Daqui um minuto o despertador do vizinho de cima vai tocar, um outro morador do prédio vai sair e fazer um enorme barulho tentando ligar sua moto na garagem. Depois de dez minutos ele conseguirá.
Quando faltar trinta segundos para as as seis horas da manhã, saltará em meu peito, de repente, uma grande esperança de que o despertador do vizinho não toque, de que hoje ele não vá trabalhar, de que a moto do outro morador não funcione e de que todos os passarinhos tenham ido passarinhar em outro lugar. Tenho alguma esperança de que o silêncio se prolongue, de que o barulho caótico da cidade não me invada, não me violente… de que um novo dia se adie para que eu possa digerir este último que ainda pulsa em mim.
Mas quando o passarinho fatalmente canta, o despertador categoricamente toca e a moto inevitavelmente funciona, sinto toda a minha impotência e insignificância. Um novo dia persiste, a natureza persiste, os cidadãos persistem, o trabalhador persiste, os homens persistem marcando o tempo, os compromissos, os prazeres. Há hora para tudo, e eu, completamente desregulada com o horário do mundo, sinto-me só, dentro de um submarino que afunda e afunda, num mar que eu não posso explorar se não estiver lá dentro.
Só conseguirei dormir quando estiver completamente entregue, com toda a minha relutância abolida. Assim, prestarei atenção no canto estridente e reclamão dos pássaros, nas cores do sol batendo em minha janela, nos sons do vizinho no banheiro e o imaginarei em cada passo que ele dá. Na cor de sua escova de dente, em como se olha no espelho, se espreme uma espinha ou faz a barba, em quanto tempo demora para tomar banho… se é uma mulher, um homem, se está animado ou triste, se faz xixi em pé ou sentado.
Pensarei na moto, não sei como ela é, nem quem a dirige. Pensarei no caminho que ela fará e na sua cor. Acho que é vermelha, gosto de pensá-la vermelha. Gosto de imaginá-la cortando aquela rua do centro da cidade com coqueiros, a rua que sempre dá a sensação de que findará em uma praia…
E quando finalmente eu tiver dado atenção ao mundo ao meu redor e abandonado meu caso com o passado e o silêncio é que, sem saber exatamente como, cairei em um sono profundo e desapercebido.
Ao acordar com o despertador, derramarei na pia o meio litro de café frio que sobrou do dia anterior. Farei mais café, o suficiente para oito pessoas. Somente eu e o mármore branco tomaremos dele. Ouvirei o estalo da geladeira, afirmando sua existência fria e truncada. A vaquinha na minha caneca preferida me sorrirá. Eu olharei para a minha cama vazia, para os oito copos vazios e sentirei-me só outra vez… Não com o desejo exato de oito pessoas ao meu redor, mas de um único alguém, tão vasto e inteiro que preenchesse todos os copos e canecas, e eu não sentisse mais o vazio que deles transborda toda vez que abro a porta do armário da cozinha. Alguém que preenchesse o espaço que hoje é morada da ausência: a cama, os armários, o chuveiro, o chão, a minha expiração no instante em que toca o ar…
Mas trago o peito solitário e aflito… Morre todo dia quem não morre de amor.
