Arquivo por Autor

05/05/2012

olhos adoecidos

por Fernanda Paz

meus olhos estão doloridos,
uma dor profunda,
até a alma.
uma dor inexata,
difusa
quase irremediável.
uma dor que oftalmologistas
não poderiam curar
nem os místicos ou religiosos
poderiam.

meus olhos estão cansados
saturados de tantas imagens
meu corpo está viciado
em ver.

meu corpo todo se move
ao comando primeiro de minha visão
minha visão impulsiona
os meus desejos,
principia meus pensamentos
antecede meus julgamentos.

meus olhos estão doentes
de tanto vício
nos conteúdos imagéticos
da televisão
da propaganda
da verdade do mundo.
do que é feio
do que é belo…

meus olhos doem
esmagados pelas grades desta cela.
meus olhos são duas prisões
hipnotizados em formas, cores e luzes.
queria poder libertá-los
como bolinhas de gude que,
entre uma curva e outra,
escapam e se perdem
das mãos dos meninos.

queria curar-me deste vício
desta ânsia em encontrar com os olhos
e deixar-me
encontrar com o mundo
pelos outros sentidos…

minha pele está doente
as pessoas se olham
mas não se tocam
minha pele, enclausurada
e esquecida
morrendo de medo e desejo
de tocar.

minha pele quer entrar em contato
minha pele quer quebrar
a barreira dos olhos

fecham-se os olhos
e abrem-se as pálpebras
(que estão sempre contraídas,
escondidas, apertadas
só para que os olhos se mostrem)
a pele da minha pálpebra
gostaria de um beijo,
pois as peles estão muito sozinhas
e tristes
neste grande reino
dos olhos adoecidos.

ao fim sinto que
todo o meu corpo
parece doente
e amedrontado
docilizado
domado
e esquecido.

quero fazer do meu corpo
um grito.

01/05/2012

Dentro de um filme do Woody Allen

por Fernanda Paz

um café após o outro
numa cafeteria
cheia de gente e vazio.
faz muito frio,
é época das cafeterias
lucrarem como nunca.

as pessoas se encontram
com antigos amigos
para colocarem a conversa em dia,
protocolar suas relações
e depois ficarem mais quatro meses
sem se falarem.

eu estou só
e sinto a cidade cortando-me o peito
bebo café como quem bebe
pinga.
eles estão tirando fotos de si mesmos
com seus iphones
eles tomam café com creme de avelã
e parecem ter dificuldade de concentração
não sabem se olham
uns para os outros
para a TV de plasma na parede
ou para seus celulares.

Sigo tomando quantos cafés
eu puder pagar
- café com conhaque dessa vez, moça!
vou ficando ansiosa
escrevo este poema
com estas mãos duras e gélidas.
ouço Billie Holiday
dentro da minha cabeça
e sinto falta de você.
fico imaginando
sua cara de bobo aqui do meu lado
falando um monte de bobagens.
você estaria olhando para mim
ou estaria distraído
com qualquer outra partícula de mundo?

fico ouvindo
o som das xícaras de porcelana
batendo nos pequenos pires.
é um som incessante
que improvisa com a Billie
dentro da minha cabeça.

faz frio
muito frio
e é difícil não te querer mais
em dias como esses…
mas persisto
insisto no meu café
e na minha solidão.
para ser feliz mesmo, meu bem
eu só queria uma garrafa de vinho
e uma vida
dentro de um filme
do Woody Allen.

23/04/2012

Avistei umas frô

por Fernanda Paz

Quem não acredita
no meu adeus
é bom acreditar, amô
é bom acreditar, amô
que eu demoro a ir embora
mas quando eu me acerto comigo
e decido
arrumo minhas coisas
e me retiro
é bom acreditar no meu adeus, dotô
que eu tô indo embora
sim sinhô

lá depois das montanha
avistei umas frô.

13/04/2012

Irresoluto

por Fernanda Paz

Eu vou me embrenhando dentro dessas coisas irresolutas e difíceis. Ele chega perto de mim depois de ter cheirado mil carreiras e eu quero jogá-lo para longe, descarrilhá-lo, espatifá-lo na verdade de si mesmo, mas não ficar lá para olhar.
Quero ir, ir tão longe e tão fundo, que já não possa mais ouvir nem ver. O silêncio no som de um coração.
Um moço que conheci ao acaso perguntou-me se havia alguém parar proteger-me, e eu respondi que não, que estava sempre sozinha; eu mesma me protegia (tentava, ao menos). Perguntou se ele poderia proteger-me, e eu respondi que estaria mais desprotegida do que nunca se, por esperança ou desespero, acreditasse em heróis.

13/04/2012

Não há mistério

por Fernanda Paz

Uma simplicidade única, difusa, tão silenciosa que parece mistério. Parece mistério aquilo que nunca diz, que não comunica, que o tempo todo aparenta guardar algo de precioso que a qualquer instante poderá ser revelado.
Você fica lá, eternamente, esperando o momento da revelação. Não existe revelação, não existe mistério, não há nada sendo escondido. Nenhum tesouro nos próximos respiros.
A simplicidade daquela existência é encantadora porque em ti finda sendo segredo. Aquela alma que não comunica não por não querer, mas por ser simplória demais para parar no meio da ponte, no meio dos carros, e falar em línguas inexistentes para um louco e finalmente ser entendido.
A tua espera é a tua própria paixão. É mais fácil imaginar coisas acerca de pessoas como essas. Como um papel, é mais fácil desenhar sobre a superfície plana.

07/04/2012

“A contradição pesado-leve é a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições.”

por Fernanda Paz

“(…) o peso, a necessidade e o valor são três noções íntimas profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

- “Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da Terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.”

Milán Kundera, em “A insustentável leveza do ser”.

Sigo em busca de pessoas e situações que alimentem minha densidade, que cultivem seres em minhas profundezas, que tenham coragem de mergulhar comigo em um oceano e lá no fundo morrer sem ar e voltar mais vivo. Busco o inteiro, o fundo, o choro mais terrível e o riso mais penetrante. Busco quem queira comigo a vida
e não me exija a leveza dos que não urgem em sentir…

04/04/2012

Trago o peito solitário e aflito

por Fernanda Paz

Faço café como quem se esquece que vive só. O café transborda da garrafa térmica e colore de marrom escuro a bancada de mármore branco. Penso comigo, não sei fazer café para uma única garganta.
Abro o armário. Tenho exatamente oito recipientes entre copos de requeijão e canecas. Oito pessoas poderiam beber café comigo. O café transborda, somente o mármore branco compartilha comigo aquele oceano negro.
Escolho uma caneca para beber o meu café. Escolho a melhor, a mais nova e mais bonita; ela é verde e laranja com o desenho de uma vaquinha simpática.
Tenho a vaquinha, tenho o mármore e tenho o som religioso de minha velha geladeira, que a cada exatos cinco minutos emite um som muito alto, um estalo seguido de uma leve tremedeira.
Sento na banqueta e apoio minha caneca na mesa. Fico observando o meu quarto da cozinha, vejo uma cama de casal e um abajur. Vou para perto da porta de entrada da casa. Olho tudo, cada detalhe, com enorme satisfação. Tenho exatamente a casinha que imaginei. Os quadros na parede, a prateleira de livros, as fotografias, os abajures, a cama, o tapete e as cortinas… Vou fazendo miudezas como quem faz edifícios, pinto um vaso, tinjo uma cortina, crio uma mandala para pendurar na janela…
A casa tem alguma exteriorização muito visível de mim, e isso é o que a torna tão aconchegante e ao mesmo tempo tão claustrofóbica.
Tenho tido dificuldade para dormir, a insônia me pega como refém e quer me amar. Eu me rendo a ela, a amo e me vicio nessa companhia sorrateira e suspensa do tempo. De madrugada quase se pode encontrar o silêncio… todas as dores, obrigações e papéis sociais vão dormir.
O momento mais terrível do meu dia é quando as seis horas da manhã começam a se aproximar. Exatamente as seis o meu vizinho acorda. Posso ouvir até o barulho de seu despertador no andar de cima. Ele faz tudo sempre do mesmo jeito: abre a torneira, fecha a torneira, usa o vaso, dá descarga, toma banho. Depois de uns dez ou quinze minutos ouço sua porta abrir e fechar com força. Com certeza faz tudo as pressas para cumprir com seus horários, depois só o ouço novamente as dez horas da noite, quando ele chega apressado para tomar banho e dormir.
As cinco da manhã começo a ficar ansiosa, as cinco e quinze tento técnicas de meditação para dormir, as cinco e meia desisto, levanto, faço um chá, ascendo um incenso, ouço Chet Baker. As cinco e quarenta e cinco já estou completamente desesperada, com os ouvidos inseguros e amedrontados, temendo a chegada da primeira onda sonora do novo dia, aquela que violentará meu tempo e minha quietude. E finalmente as cinco e cinquenta e cinco já posso ver raios de sol entrando pela minha janela e ouvir o som dos passarinhos cantando. O som do canto dos pássaros é o ponto máximo de minha angústia. Depois desse auge eu me resigno, começo a contar os minutos em minha cabeça. Daqui um minuto o despertador do vizinho de cima vai tocar, um outro morador do prédio vai sair e fazer um enorme barulho tentando ligar sua moto na garagem. Depois de dez minutos ele conseguirá.
Quando faltar trinta segundos para as as seis horas da manhã, saltará em meu peito, de repente, uma grande esperança de que o despertador do vizinho não toque, de que hoje ele não vá trabalhar, de que a moto do outro morador não funcione e de que todos os passarinhos tenham ido passarinhar em outro lugar. Tenho alguma esperança de que o silêncio se prolongue, de que o barulho caótico da cidade não me invada, não me violente… de que um novo dia se adie para que eu possa digerir este último que ainda pulsa em mim.
Mas quando o passarinho fatalmente canta, o despertador categoricamente toca e a moto inevitavelmente funciona, sinto toda a minha impotência e insignificância. Um novo dia persiste, a natureza persiste, os cidadãos persistem, o trabalhador persiste, os homens persistem marcando o tempo, os compromissos, os prazeres. Há hora para tudo, e eu, completamente desregulada com o horário do mundo, sinto-me só, dentro de um submarino que afunda e afunda, num mar que eu não posso explorar se não estiver lá dentro.
Só conseguirei dormir quando estiver completamente entregue, com toda a minha relutância abolida. Assim, prestarei atenção no canto estridente e reclamão dos pássaros, nas cores do sol batendo em minha janela, nos sons do vizinho no banheiro e o imaginarei em cada passo que ele dá. Na cor de sua escova de dente, em como se olha no espelho, se espreme uma espinha ou faz a barba, em quanto tempo demora para tomar banho… se é uma mulher, um homem, se está animado ou triste, se faz xixi em pé ou sentado.
Pensarei na moto, não sei como ela é, nem quem a dirige. Pensarei no caminho que ela fará e na sua cor. Acho que é vermelha, gosto de pensá-la vermelha. Gosto de imaginá-la cortando aquela rua do centro da cidade com coqueiros, a rua que sempre dá a sensação de que findará em uma praia…
E quando finalmente eu tiver dado atenção ao mundo ao meu redor e abandonado meu caso com o passado e o silêncio é que, sem saber exatamente como, cairei em um sono profundo e desapercebido.
Ao acordar com o despertador, derramarei na pia o meio litro de café frio que sobrou do dia anterior. Farei mais café, o suficiente para oito pessoas. Somente eu e o mármore branco tomaremos dele. Ouvirei o estalo da geladeira, afirmando sua existência fria e truncada. A vaquinha na minha caneca preferida me sorrirá. Eu olharei para a minha cama vazia, para os oito copos vazios e sentirei-me só outra vez… Não com o desejo exato de oito pessoas ao meu redor, mas de um único alguém, tão vasto e inteiro que preenchesse todos os copos e canecas, e eu não sentisse mais o vazio que deles transborda toda vez que abro a porta do armário da cozinha. Alguém que preenchesse o espaço que hoje é morada da ausência: a cama, os armários, o chuveiro, o chão, a minha expiração no instante em que toca o ar…
Mas trago o peito solitário e aflito… Morre todo dia quem não morre de amor.

29/03/2012

Tudo se desfaz

por Fernanda Paz

tudo se desfaz
teu rosto
teu gesto
teu gosto
cinzas tuas
no meu café da manhã

tua pele é coisa morta
sem via
sem veia
tua pele é coisa fria
sem lava
sem nada
que agrava

pensar em ter-te
é muito mais
prazeroso
do que
te ter

(te ter
é sempre muito menos
do que
te ter)

sou grave,
urgente
como um planeta
que cai
viver é pesado
para os que
tudo sentem
- plenamente
e a tudo se entregam
- inteiros

tu não entendes
tu não me tocas
só o teu vazio
se prolonga
e me penetra

acho mesmo
que gosto mais
de mim
quando não gosto mais
de ti

acho,
querido,
que te abortei
de mim.

19/03/2012

Sendo exatamente o que meu corpo gostaria de ser

por Fernanda Paz

Seus seios eram como dois fornos, quentes e dilatados, a sua pele macia tinha cheiro de mulher. Eu tocava nela com as pontas dos dedos e toda aquela pele gritava, levantava, doía.
Ela mordia meu pescoço, dizia coisas com uma voz rouca e sussurrada, esfregava toda aquela vastidão em mim, me lambendo a vida aos pés do ouvido.
Ela ficava de costas para mim, meu sexo inflamado tocava suas nádegas seminuas, então meu dedo indicador percorria seu ombro liso… Eu deixava o dedo descer lento até a alça do sutiã e lá acariciava a sua pele por debaixo da alça, até que ela caísse de seu ombro. Seus seios se derramaram do bojo do sutiã e os bicos encostaram levemente na sua fina camisola de cetim, sob a luz amarela do abajur. Seios tenros, vermelhos e redondos como romãs, inchados, flamejantes.
Desci os dedos dos ombros dela até os seios bem devagar, e quando os possuí inteiros, incrivelmente bem acomodados em minhas mãos, apertei-os com toda força…Depois lambi seus bicos com a ponta de língua e abriguei-os em textura, gosto e tesão dentro da minha boca, os chupei e dei leves mordidas, cada vez mais intensas, até culminar numa mordida mais forte, o que a levaria a sentir uma leve dor seguida de um gemido.
Deitei por cima dela, finalmente estávamos completamente nus, com os órgãos tão próximos que era como estar a porta do paraíso, apenas contemplando o fato de que em breve eu seria abarcado por tudo aquilo de maravilhoso.
Ela lambia os espaços entre meus dedos. Sussurrava que me queria dentro dela enquanto me tocava…
Nossos órgãos se encostavam inevitavelmente, e eu morria de vontade de estar dentro dela, eu só pensava nisso, no seu calor de dentro, na sua chuva se esparramando em mim.
Mas ela me controlava, me segurava e me apertava forte, sua mão escorregava… eu estava doente, inchado, absorto em enchentes… Tudo o que ela toca canta e chove, desobedece, quer viver… toda a minha pele e tudo o que eu podia sentir concentrados em suas mãos e boca e saliva, e seios e líquido… indefeso, entregue.
Seus corpo todo é quente e claro, as pernas… eu tenho vontade de morar nelas.
Ela finalmente me deixa tocar seu sexo, ele é macio e desliza como um sonho, receptiva tempestade…
Quando finalmente atravesso suas paredes, vagarosamente elas me apertam e me puxam para dentro. Penetrá-la é como estar de volta à casa depois de anos, tudo conhecido e aconchegante… É como estar seguro de todas as coisas, inteiro e pleno, sendo exatamente o que meu corpo gostaria de ser.

18/03/2012

Por uma janela despretensiosa…

por Fernanda Paz

Lembro… dentro daquele lugar escuro e abafado, onde as pessoas dançavam e bebiam, tudo ia ficando cada vez mais denso e apertado, esfumaçado e distante…
Eu olhava as pessoas ao redor, absolutamente distraídas, e eu ali, pesada, irremediavelmente dolorida…
Disse-lhe que ninguém suporta sustentar um olhar tão profundo por muito tempo, principalmente se as pessoas envolvidas neste olhar pouco se conhecem. Ele nada respondeu, apenas observou ao redor, tentando entender porque eu dizia aquilo do nada, rompendo nosso silêncio fúnebre.
- Por que você tá dizendo isso?
- Olha, eu mal te conheço e vou cometer o crime de olhar bem fundo nos seus olhos por um longo tempo. Duvido que você aguente isso sem desviar os olhos.
Olhei-o tão forte dentro da íris que meu campo de visão mal podia abarcar seus cílios. A música foi ficando cada vez mais baixa e silenciavam os risos. A fumaça do ambiente se dissipara e eu via o contorno das pupilas cada vez mais nítido. Não havia nada ali além daquele oceano de dentro. Nenhum som, nenhuma imagem. O que eu via ia se transformando em uma sensação sinestésica cada vez mais independente dos olhos. Aquela sensação corria na velocidade do sangue pelo meu corpo todo, era uma entidade, uma célula, um pulso… um coração.
Foi exatamente quando ele percebeu que aquilo que ele era estava transcendendo o corpo e invadindo alguém que o sentia correr pela espinha dorsal, que ele desviou os olhos o mais rápido que pôde. De imediato, como se apertassem um botão, o som voltara altíssimo, tudo ficara absurdamente real, eu voltava a sentir meus pés doerem por causa dos sapatos… Eu tinha um corpo, enfim.
Talvez ele tivesse medo, não confiasse em mim… ou estivesse se sentindo em algum tipo de experiência. Quem observava era eu, ele era apenas o meu objeto. Não era ele quem estava empenhado em ver, eu é que assumia este papel solitariamente. Não era uma troca, mas uma invasão.
- Eu sabia que você não conseguiria.
Ele nada disse. Quase não dizia nada… não porque era silencioso, mas porque suspeitava cada vez mais de minhas atitudes.
Concluí que ele nunca entenderia nada do que eu fizesse e saí solitária a caminhar pelo salão, deixando-o lá encostado na parede, se amparando com coisas concretas.
Quando cheguei ao fundo do salão senti uma brisa demasiadamente fresca para um local tão claustrofóbico como aquele.
Num corredorzinho em obras e vazio havia uma janela, onde entrava muito vento. Quando cheguei perto para olhar, fiquei absolutamente encantada: era uma janela que dava para o mar e umas casinhas em cima de pedras. A lua estava incrível, gorda e brilhante, bem acima do telhado de alguém.
O mar era de um verde enegrecido, assustadoramente íntimo. Em cima de uma pedra um pássaro repousava. Fiquei ali por minutos, extasiada.
Era como se Magritte tivesse invadido a festa e pintado numa parede aquele cenário surreal.
Ele chegou logo depois… colocou-se ao meu lado e ficou observando a minha face encantada.
- Nossa, eu não sabia que existia essa paisagem aqui. Nem sabia que estávamos perto do mar… Para mim é impressionante estar num lugar tão escuso como este e de repente encontrar o oceano, assim, sem mais nem menos, numa janelinha despretensiosa. Aliás, que pássaro é aquele em cima da pedra?
- Não sei, mas acho que é uma coruja. É uma coruja.
Quase morri de rir.
- É obvio que não é uma coruja. Corujas não ficam dormindo em cima de pedras sobre o mar!
- Ah, não? Então não sei… mas ainda acho que é uma coruja.
- Claro que não. Deve ser uma gaivota ou algo do tipo!
E eu fiquei ali, morrendo de vontade de ser aquele bicho, não importava o que ele fosse. Sereno, de olhos fechados, no meio do mar. Ali ele não poderia ouvir o barulho nem ver aqueles humanos…
Ele queria que fôssemos embora, mas eu não conseguia sair daquela janela. A brisa me arrepiava inteira e eu tinha uma vontade enorme de viver…
Meus músculos da face se contorciam e eu sorria involuntariamente. Ele permanecia sério, um tanto impaciente, sem entender bem toda aquela minha empolgação.
Desviei o olhar daquela paisagem incrível só para vê-lo. Ele não olhava nem para mim nem para o mar… muito menos para o pássaro. Estava entediado observando um aquário abandonado, sem peixes e sem água, logo atrás de mim.
- Olha, tem um aquário todo arrebentado aqui atrás.
Olhei o aquário. Entendi que ele talvez se identificasse mais com aquilo do que com o que eu via lá fora. Lembrei de quando tentei enxerga-lo, fixar o olhar nele… Será que vi um aquário vazio e idealizei um oceano?
- Estou cansado. Vamos?
Eu ia mirá-lo e dizer que não, que ele poderia ir sozinho. Eu ficaria ali, exatamente onde estava. Mas me resignei, talvez com medo de tamanha liberdade. Era difícil ser só, por mais que pudesse ser belo… Olhei a noite e o mar, senti a brisa nos cabelos uma última vez, e então lhe dei a mão, afundando novamente naquela atmosfera angustiante e irrespirável, não sem uma insuportável dor no peito, por ter traído a mim mesma tão profundamente…

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